domingo, 28 de dezembro de 2008

Nosso prazer




leve, como a pluma,
a direção dela na asa do pássaro
exata, como a hora do amor,
das flores nacaradas, perfumadas, desabrochadas

E um tapete tecido de fios de ouro,
finos os fios, simples e leves que esvoaçam,
como se fossem seda

Sedados os meus sentidos por teus carinhos

Andei muito tempo o pó da estrada secando a boca
engoli as pedras possíveis
penei, para no topo te achar

E voei como vôa o pássaro,
como a pluma da asa do pássaro
num longo arco do meu braço ao teu rosto

Esfreguei até rude a mão na tua cabeleira
e a enrolei a prendê-la em meus dedos
te puxei para junto a mim

nosso lábios molharam-se vencendo a secura
e nossoas línguas digladiaram-se por prazer
não se feriram, mordiscadas, estaladas

nos fizemos de joelhos,
abraçados, meus seios contra teu torso nu
e tuas coxas firmes me aprisionando

Eu fingindo resistir, era prisioneira tua

e penetrada para nosso gozo
e nosso gozo foi nosso prazer
e nosso prazer foi nossa luxúria

porque não queríamos mais parar
Eu ainda lembro,
como se fosse ontem

embora até hoje, até agora ainda seja.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Coisas assim acontecem cada vez mais



o fim do mundo é possível


Edson Rossato teve uma idéia e botou o motor em primeira marcha a funcionar rolando macio, quando deu por conta, estava ele a 340 quilômetros por segundo, além da velocidade da luz e o mundo se havia ido pras cucuias.

Resolveu voltare pedir a versão de outros.
Tipo uma segunda opinião, uma outra avaliação uma oficina mais categorizada.

Então, pediu apoio de ti que escreve:

"Olá, tudo bem?

Estamos recebendo contos sobre o fim do mundo para uma antologia a ser lançada em julho de 2009. Seu título: Dias Contados -Contos sobre o fim do mundo.

Qualquer sobrevivente pode escrever e enviar uma história que ela pode chegar até a estar no livro.
A capa é essa que ilustra este reclame, que também é um comentário sore o tipo de cultura que a rede vem permitindo, fugindo do editor aquele que não lê teu texto, escapando do comerciante blasé para quem sem nome você não existe e nem pode se atrever a sequer pensr em escrever.
Ele quer é editar as memóras da mãe de alguém afamado, seja de boa ou má fama, pra se dar bem no caixa.
Eu nada conheço do Rossato [e se não é toda a verdade, pelo menos já é uma boa história, tipo a presente de natal que não chegou].
Mas este email me chegou dele.
E tem o que dele dizem lá no orkut na comu feita para o livro: http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=52247144

Pelo recado sinto que resolveu pela iniciativa depois que dobrou o espaço-tempo e derrapou na curva da galáxia no rumo de Antares.

Lá, dizem, o mundo ainda existe, embora um outro mundo, tão maior que esse conhecido nosso aqui que estamos com um pouco de medo, eu e vovó, de descer do ônibus espacial pra saber se isso é um mar ou apenas uma cusparada de um ser vivente de ajá.

Para maiores informações, acesse www.andross.com.br e leia o regulamento de envio de obras.
Abraços do Rossato!

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Nosso prazer



se a luz ilumina as flores
ou elas dão vida à luz,
vá saber-se


leve, como a pluma,
a direção dela na asa do pássaro
exata, como a hora do amor,
das flores nacaradas, perfumadas, desabrochadas

E um tapete tecido de fios de ouro,
finos os fios, simples e leves que esvoaçam,
como se fossem seda

Sedados os meus sentidos por teus carinhos

Andei muito tempo o pó da estrada secando a boca
engoli as pedras possíveis
penei, para no topo te achar

E voei como vôa o pássaro,
como a pluma da asa do pássaro
num longo arco do meu braço ao teu rosto

Esfreguei até rude a mão na tua cabeleira
e a enrolei a prendê-la em meus dedos
te puxei para junto a mim

nosso lábios molharam-se vencendo a secura
e nossoas línguas digladiaram-se por prazer
não se feriram, mordiscadas, estaladas

nos fizemos de joelhos,
abraçados, meus seios contra teu torso nu
e tuas coxas firmes me aprisionando

Eu fingindo resistir, era prisioneira tua

e penetrada para nosso gozo
e nosso gozo foi nosso prazer
e nosso prazer foi nossa luxúria

porque não queríamos mais parar
Eu ainda lembro,
como se fosse ontem

embora até hoje, até agora ainda seja.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Bienal age de modo cínico e intolerante ao lavar as mãos

Folha de São Paulo 15/12/2008


Acusar a grafiteira Carolina da Mota, presa há 52 dias, de "danificar patrimônio tombado" é estratégia hedionda

Paulo Herkenhoff, especial para a FSP

Minha opinião ou a de qualquer outra pessoa sobre o grafite não tem a menor importância no caso da Carolina Pivetta da Mota na Bienal de São Paulo. Não se trata de condenar ou aplaudir a ação de grafitagem. Eu vi, em 1972, os seguranças do MAM carioca ajudarem Antonio Manuel a fugir da polícia que o perseguia porque havia se apresentado nu no Salão Nacional de Arte Moderna.

O MAM do Rio não mandou prender Raimundo Colares quando quebrou vidros do prédio em manifestação durante a ditadura militar.
A Bienal quer que o Brasil sinta saudades da ditadura? A mesma Bienal que entrega a grafiteira à polícia foi a que proscreveu Cildo Meireles em 2006 por ter protestado contra a reeleição de Edemar Cid Ferreira para seu conselho. O paradoxo é que Edemar não providenciou a prisão da garota que beijou com batom uma tela de Andy Warhol na Bienal de 1996, fato muito mais grave do que grafitar paredes nuas.

A Bienal, seu presidente, conselheiros e curadores que continuarem a se omitir precisam aprender algo com Edemar: na Bienal, a repressão não é um fim em si. Confesso que, quando soube da grafitagem, pensei que fosse um gesto autorizado numa Bienal que ia criar uma praça de convivência e estimulava a participação da cultura pop jovem. Era estratégia de marketing ou efetiva proposta de política cultural?

No entanto, tudo é obscurantista na posição da Bienal desde o dia da grafitagem. Posso até entender as reações de primeira hora mais agressivas por agentes culturais e políticos da Bienal, mas temos de admitir ser uma estratégia hedionda acusar a grafiteira de "danificar" o patrimônio tombado, já que as feiras, as festas de casamento e a própria Bienal furam e escrevem nas paredes, pintam e bordam com o prédio sem autorização do Iphan.
Se a grafiteira fosse um nome do mercado de arte não teria sido presa ou já estaria solta.

O ato de Carolina Pivetta da Mota é rigorosamente igual a tudo o que ocorre no prédio da Bienal. Depois é só repintar, como aconteceu. Tudo se refaz porque o prédio da Bienal está à disposição da expressão. Sua estrutura original de feira industrial tinha que ser necessariamente versátil para atender a todo tipo de tranco físico. Por isso o acabamento sem adornos e luxo do Pavilhão do Ibirapuera. É só cimento, tijolo e cal.

Debate na pasmaceira

Carolina também não interveio na obra de ninguém. Ela não é uma Tony Shafrazi, que grafitou a "Guernica" de Picasso.

Se tivesse praticado um ato anti-social realmente grave, Carolina já poderia ter sido condenada a alguma prática comunitária na própria Bienal.

Neste caso, não se estaria "domesticando" uma consciência crítica, mas dando-lhe a oportunidade de entender melhor o processo de uma Bienal.

O que Carolina está contribuindo socialmente agora é a introduzir um debate na pasmaceira institucional.

Se tivesse causado um dano real à superfície das paredes, teria sido ínfimo.

Dirigi um museu do Iphan onde uma ex-diretora causou danos em esculturas ao instalá-las ao ar livre, onde tomavam chuva ácida.

O Iphan e o Ministério Público não pediram sua prisão quando se verificaram danos irreparáveis à pátina na escultura "A Faceira de Bernardelli".

No caso do grafite na Bienal, não ficaram seqüelas.

Fui curador da 24ª Bienal de São Paulo, e minha monografia final no mestrado em direito pela Universidade de Nova York foi na área de direito constitucional.

Nessa dupla condição, afirmo que o que vejo aqui é uma posição odienta da Bienal transferindo a responsabilidade por essa situação kafkiana para os órgãos do Estado como responsáveis por este processo.
Carolina não danificou nenhuma obra de arte.

Por acaso, Oscar Niemeyer veio a público protestar contra a grafitagem como um "ataque" danoso ao pavilhão do qual é autor, como sempre fez quando degradam um projeto de sua autoria?

A Fundação Bienal primeiro agiu de modo intolerante e agora de modo cínico ao lavar as mãos.

Parece que estar em "vivo contato", proposta desta Bienal, está sendo entendido como exercício de ira ou crueldade que, afinal, estão entre as pulsões de morte da espécie humana.

Ou é só vingança?

Afinal, alguém tem que pagar...

Mesmo que seja uma mulher, baixinha, gordinha que não conseguiu escapar da ineficiente vigilância da instituição como os outros 30 galalaus.

Sua prisão serviu para salvar a honra dos vigilantes e o contrato da empresa com a Bienal...

Parabéns a Carolina por não ter pensado na delação premiada para se safar da encrenca, mesmo depois de 52 dias sem um habeas corpus.

Carolina Pivetta da Mota passou o dia de comemoração dos 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos numa cadeia em São Paulo.

Isso não denigre a Bienal, nem São Paulo, nem o Brasil. Isso denigre a humanidade.

Se o vazio fosse de fato o espaço aberto para discutir a instituição, essa extraordinária grafitagem teria sido incorporada ao projeto ético e político da 28ª Bienal.

A grafitagem já é um dos fatores mais marcantes desta edição.

Com mais repressão, deixará de ser um problema de excessivo rigor penitenciário para se tornar uma questão para estudos éticos curatoriais e debates estéticos.

Se a Fundação Bienal de São Paulo não se cuidar, a conclusão a que se poderá chegar é a de que o principal problema da Bienal é a 28ª Bienal e a estrutura política que a sustentou.

Peço desculpas a Carolina por não ter protestado, em minha recente palestra na Bienal, em sua defesa e contra esse estado brutal de condução da vida institucional.

Eu pensava que já estivesse solta.

Quem salva o Brasil e a Bienal não é cadeia, é Mário Pedrosa ao dizer que a arte é o exercício experimental da liberdade.

E dirigir a Fundação Bienal de São Paulo ou fazer curadoria não pode perder isto de vista.

_
Paulo Herkenhoff é curador e crítico de arte. Dirigiu o Museu Nacional de Belas Artes, no Rio, e foi curador do MoMA em Nova York e da
24ª Bienal de São Paulo, em 1998

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Um peso demasiado dos tempos

Vejo como vês
de um um modo tal e tanto.
E quanto!
No entanto,
impossível não chegar a pânico,
ainda que à hora calma.
Vai-se rota e descamisada a aurora,
finda a tarde sem as alças da blusa,
os supensórios ou mesmo os zíperes das calças...
correm imundas
e nauseantes espumas,
leves apenas no nome,
abundam peso,
o demasiado peso dos tempos.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Açorianos de Literatura Será Entregue Dia 15

Recebi do amiguinho Bayard Bocker, coordenador de Livro e Literatura da Cultura de Porto Alegre e deixo aqui porque muito interessa.

Fica como homenagem minha a Luiz Paulo de Pilla Vares, recentemente falecido, secretário da cultura de Porto Alegre de 1989 a 1996.

O Prêmio Açorianos de Literatura - em sua 15ª edição - será entregue em cerimônia no dia 15 de dezembro, às 20h30min, no Teatro Renascença (Av. Érico Veríssimo, 307).
A festa dedicada aos melhores da produção literária e livreira de Porto Alegre ocorrerá durante a já tradicional Noite do Livro.

O Açorianos premiará obras publicadas em 10 categorias: narrativa longa, poesia, conto, crônica, ensaio de literatura e humanidades, literatura infantil, literatura infanto-juvenil, categoria especial, capa, projeto gráfico/design, além do livro do ano, que será escolhido entre os vencedores de todas as categorias e receberá um prêmio em dinheiro no valor de R$ 10.000,00. Serão conferidos ainda destaques para editora, mídia impressa, mídia digital (blogs e sites), rádio e projetos de incentivo, promoção e divulgação da literatura.



A Noite do Livro terá como apresentadora a atriz Mirna Spritzer que, sob a direção e produção de Humberto Vieira, conduzirá a entrega dos prêmios no clima dos antigos programas de rádio. A cerimônia também contará com os talentos dos atores Raquel Grabauska e Mateus Mapa. Para remeter ainda mais aos estúdios radiofônicos dos anos 50, o evento terá a participação da Orquestra -Juvenil do Instituto Popular de Arte-Educação - IPDAE, ong da Lomba da Pinheiro, que em 2007 recebeu o Açorianos de Destaque pela Biblioteca Leverdógil de Freitas.

Veja abaixo a relação dos finalistas (as categorias Capa e Projeto Gráfico/Design são indicadas diretamente pelo Júri):



Categoria NARRATIVA LONGA

Título: Acenos e afagos, João Gilberto Noll, editora Record

Título: Areia nos dentes, Antônio Xerxenesky, Não Editora.

Título: Depois do sexo, Marcelo Carneiro da Cunha, editora Record.





Categoria ESPECIAL

Título: Álbum de Porto Alegre 1860-1930, Org. Marcos G. Lindenmayer, editora Nova Roma.

Título: Dicionário de Figuras e Mitos Literários das Américas, org. Zilá Bernd, editora UFRGS.

Título: Teatro de Arena Palco de Resistência, Rafael Guimaraens, editora Libretos.



Categoria CONTO

Título: Alguns procedimentos para ocultar feridas, Juarez Guedes Cruz, editora Movimento.

Título: Pó de Parede, Carol Bensimon, editora Não Editora.

Título: Tocata e Fuga, Luís Dill, editora Bertrand Brasil.



Categoria CRÔNICA

Título: Agora eu era, Cláudia Laitano, editora Record.

Título: É Foch!, Nei Lisboa, editora L&PM.

Título: Ópera dos Vivos, Jayme Copstein, editora EST Edições.



Categoria POESIA

Título: Desencantado Carrossel, Diego Grando, editora Não Editora.

Título: Estrela Boieira - Antero Marques - Organizadores: Valdir Amaral Pinto, Paulo Estivalet Flores Pinto e Miguel Frederico do Espírito Santo, editora EST Edições.

Título: Lunário Perpétuo, Eduardo Dall'Alba, editora Belas Letras e Espaço Engenho e Arte.



Categoria ENSAIO DE LITERATURA E HUMANIDADES

Título: A Mão e o Número - sobre a possibilidade do exercício da intuição nas novas tecnologias, Mário Furtado Fontanive, editora UniRitter.

Título: Artes Plásticas no Rio Grande do Sul - Uma Panorâmica, Paulo Gomes, editora Lahtu Sensu;

Título: Machado e Borges e outras histórias de Machado de Assis, Luís Augusto Fischer, Arquipélago Editorial;



Categoria LITERATURA INFANTIL

Título: Brincriar, Dilan Camargo, editora Projeto.

Título: O Circo Mágico, Alexandre Brito, editora Projeto.

Título: Sai Pra Lá!, Ana Terra, editora Larousse Júnior.



Categoria LITERATURA INFANTO-JUVENIL

Título: Diogo e Diana em: Meu vizinho tem um Rottweiler (e jura que ele é manso...), Tabajara Ruas e Nei Duclós, editora Galera Record.

Título: Olhos Vendados, Luís Dill, editora DCL (Difusão Cultural do Livro).

Título: Uma colcha muito curta, Sérgio Capparelli, editora L&PM.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Assassinatos continuam nos quilombos de Porto Alegre

Em virtude dos acontecimentos no Quilombo dos Alpes, o Quilombo em conjunto com o Movimento Negro iniciou vigília nos dia 6 de dezembro.

A Comunidade está ainda ameaçada pelo assassino de duas lideranças quilombolas, Joelma e Guinho, e com dificuldades de garantir sua segurança.

Nem Brigada Militar, Polícia Civil ou a própria Polícia Federal, a quem competia a segurança do Quilombo promovem ações capazes de impedir a violência.

Diante do processo de titulação aberto no Incra a segurança da comunidade local compete ao Poder Público Federal.

As organizações e movimentos sociais sensíveis à causa foram chamadas para uma mobilização em Frente a sede da Polícia Civil, hoje, 8, com concentração a partir para o

ATO DE PROTESTO CONTRA A VIOLÊNCIA NOS TERRITÓRIOS QUILOMBOLAS E EM ESPECIAL, OS ASSASSINATOS DE JOELMA E GUINHO DIRIGENTES DA ASSOCIAÇÃO QUILOMBOLA DOS ALPES NO DIA 4 DEZEMBRO E CONTRA A NEGLIGÊNCIA DO ESTADO EM TODAS SUAS ESFERAS, SOBRETUDO COM RELAÇÃO A SEGURANÇA PÚBLICA.



Dia 11 de dezembro ocorrerá uma Audiência Pública na Câmara de Vereadores, às 10 horas, com o objetivo de garantir a segurança da comunidade, apurar os fatos e fazer justiça social a partir da titulação imediata das terras quilombolas e entrega delas á comunidade moradora.


Associação da Comunidade Remanescente dos Alpes D. Edwirges.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

O frio pode ser quente

Jandira Mansur

As coisas têm muitos jeitos de ser,
depende do jeito que a gente vê.
O comprido pode ser curto e o pouco pode ser muito.
O manso pode ser bravo e o escuro pode ser claro.
O fino pode ser redondo e o doce pode ser amargo.
O quente pode ser frio e o que parece um mar também pode ser um rio.
(...)
Quem já se queimou num pedaço de gelo e sentiu muito frio depois de um banho quente não pode se espantar do frio poder queimar e o quente também esfriar.
Uma árvore é tão grande se a gente olha lá para cima mas do alto de uma montanha ela parece tão pequenina.
Grande ou pequena depende do quê?
Depende de onde a gente vê.
O domingo é tão curto os outros dias duram tanto,
nas horas eles são iguais
a diferença deve estar naquilo que a gente faz.
O amanhã de ontem é hoje, o hoje é o ontem de amanhã;
dentro dessa complicação quem tem uma explicação?
Dá até para perguntar se o amanhã nunca chega,
e também para pensar hoje, ontem, amanhã depende do quê,
depende do jeito que você vê.
(...)
O pouco pode ser muito, o quente pode ser frio,
será que tudo está no meio e não existe só o bonito ou só o feio?
O comprido pode ser curto, o fino pode ser redondo,
parece mesmo que no fim o bom pode ser ruim,
e neste caso por que não o ruim pode ser bom?
Curto e comprido, bom e ruim, vazio e cheio, bonito e feio
- são jeitos das coisas ser, depende do jeito da gente ver.
Ver de um jeito agora e de outro jeito depois, ou melhor ainda,
ver na mesma hora os dois.

Mansur, Jandira. O frio pode ser quente? São Paulo: Ática, 1985

terça-feira, 2 de dezembro de 2008




Encantada

Eu li teus versos como quem ora
Acalanto... puro encanto, senhora
Li tua alma no teu livro, por agora
Tenho motivo algum para o pranto.

Verso, verve, sangue. Ardente paixão
Sou alegria pura... desencontrada razão
Pulsam-me quentes as artérias e veias
Latejam compassadas na toada do coração.

São teus versos de lúcida chama
Um escorrer dos lábios vida e mel
Deixam-me teu sabor doce na boca.
Eu li teus versos como quem ama.




[Um contraponto meu a Desencanto, de Manuel Bandeira, encantada eu por Flor de Pedra, de Cida Almeida.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Jongo, chupetas e balaços

Depois de se meter na trapalhada de ocupar o espaço de uma creche no Morro Dona Marta que atendia a 120 crianças para transformá-la em uma Posto Policial, a política de "segurança" do Governo do Estado do Rio de Janeiro, em mais uma
de suas atuações truculentas em comunidades populares, invadiu em 28.11.08 a comunidade da Serrinha em Madureira. Encontrou bebês e crianças entricheirados na Escola de Jongo do Grupo Cultural Jongo da Serrinha um dos maiores símbolos da preservação da memória e das tradições jongueiras - matriz de uma das principais expressões da cultura popular do Rio - o Samba. A operação era para prender traficantes, como são as recorrentes invasões de favelas. conseguiu botar a vida dos moradores em risco e cometer crime contra o patrimônio cultura e as tradições populares do Rio de Janeiro. Em artigo, o desembargador Siro Darlan, presidente do Conselho Estadual dos Direitos da Criança e do Adolescente, comenta a absurda atuação da polícia fluminense quando se trata de ações em comunidades populares e do desrespeito às tradições de cultura.

Serrinha, Capital do jongo e do samba.

Siro Darlan de Oliveira


O Rio de Janeiro está sediando o 3º Congresso Internacional de Combate às Violências sexuais contra crianças e adolescentes. E, paralelamente, a menos de 50 quilômetros do Rio Centro, a polícia dá mais uma demonstração de despreparo e desrespeito às populações mais carentes.

Assim como fizeram na ocupação violenta do Complexo do Alemão, quando deixaram todas as crianças fora das escolas por mais de 60 dias, acabam de destruir um dos raros espaços culturais e educacionais existentes em comunidades empobrecidas, ao atacarem
com fúria e violência a população da Serrinha sob o pretexto, aplaudidas por alguns desavisados cidadãos, de combater os comerciantes de drogas, que por incompetência da policia de fronteiras e falta de políticas públicas, obrigação dos governos
estaduais e municipais.

O Jongo da Serrinha é um dos mais tradicionais grupos de cultura do país tendo recebido diversos prêmios por seu trabalho artístico e social. Com 40 anos de história, o grupo de Madureira foi fundado por Mestre Darcy e sua mãe, Vovó Maria Joana Rezadeira que, preocupados com a extinção do jongo na cidade, transformaram
a antiga dança praticada nos quintais da Serrinha num espetáculo.

O Morro da Serrinha, localizado na zona norte do município do Rio de Janeiro, é uma comunidade urbana com aproximadamente 5.000 moradores na sua maioria negros. Com cerca de 110 anos de existência, a Serrinha é uma das primeiras favelas do país, tendo recebido no início do século passado um enorme contingente de escravos negros recém-alforriados.

Os moradores da Serrinha constituíram um núcleo religioso e cultural potencial,
visitado não só pelos moradores das cidades próximas, como também por jornalistas, artistas e turistas de vários pontos do Estado do Rio, do Brasil e exterior, interessados em cultura e tradições afro-brasileiras.

O Jongo é uma herança cultural trazida pelos negros bantos que vieram da região do Congo-Angola, na África, para as fazendas de café do Vale do Paraíba no século 19
que ficou preservado na região. Graças a uma iniciativa do grupo, o ritmo foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), em 2005, como o primeiro Bem Imaterial do Estado do Rio de Janeiro.

Ao transformar a antiga dança de roda num espetáculo, Mestre Darcy e Vovó Maria
inovaram ao introduzir violão e cavaquinho no jongo e ao ensinar crianças a dançar, antigamente só permitido aos “cabeça branca”, criando uma nova referência do jongo na cidade e garantindo sua sobrevivência no contexto da lobalização.

Em sua trajetória de resistência, o Jongo da Serrinha se transformou em uma das mais
genuínas referências da cultura carioca e vem se apresentando em diversas cidades do Brasil e exterior divulgando e preservando o ritmo com espetáculos de alta qualidade.

Em 2000, o grupo criou a ONG Grupo Cultural Jongo da Serrinha (GCJS) para desenvolver estratégias de preservação da memória da comunidade Serrinha e do
jongo e de educação e capacitação profissional para jovens e crianças, através da Escola de Jongo (EJ). Recebeu diversos prêmios entre eles o Escola Viva (2007), Cultura Nota Dez (2006), Cultura Viva (2006), Itaú-Unicef (2007 e 2005), Petrobrás Rival BR (2002), Orilaxé (2002) e o prêmio mais importante do Ministério da
Cultura, a Medalha de Ordem ao Mérito Cultural
(2003).

A ONG tem, em linhas gerais, duas missões institucionais: educar crianças e jovens através da arte e da memória e preservar o jongo como patrimônio imaterial
através da produção cultural, gerando trabalho e renda.

A Escola de Jongo é o projeto sócio-educativo do Grupo hoje patrocinado pela Petrobrás, Criança Esperança e Ministério da Cultura. A Escola valoriza e fortalece laços familiares, comunitários e a identidade local, preservando o Patrimônio Imaterial do jongo criando alternativas de geração de trabalho e renda. A base pedagógica da Escola de Jongo é fundamentada na cultura e memória locais. A Escola de Jongo atende a cerca de 120 crianças e jovens, diariamente em dois turnos, com
aulas de música (canto e percussão), dança (afro e jongo), teatro, capoeira angola, cultura popular, leitura e Griôs (contadores de história).

O GCJS também cria produtos (discos, livros, filmes, etc), pesquisa, reúne, organiza e produz acervo audiovisual sobre o jongo, a Serrinha e a cultura popular
brasileira e africana.

Como ONG, está inserido em diversas redes do terceiro setor e conta com o apoio de vários parceiros institucionais. Para elaboração de metodologia pedagógica e
planejamento estratégico participa das Redes Social da Música, Rede Circo Social e Rede de Memória do Jongo. A instituição conta ainda com o apoio da Unesco, FASE/SAAP, G.R.E.S. Império Serrano e artistas entre eles Paulão Sete Cordas, Letícia Sabatella, Sandra de Sá, Beth Carvalho, Dona Ivone Lara, Beth
Carvalho, Jorge Mautner, Arlindo Cruz, entre outros.


Pois essa rara escola de cultura e tradição acaba de ser destruída pela
incompetência dos policiais do Senhor Beltrame que sob pretexto de combater a violência, usando da mesma, deixou órfãos crianças e jovens que mesmo tendo sido roubados em seus direitos fundamentais de cidadania, porque lá o governo não chega com creches, educação, saneamento básico, se dedicavam a preservação de sua cultura e arte, mas tal qual o exército nazista foram atacados por fuzis e armas pesadas, enquanto se defendiam com sua chupetas, mamadeiras e o som de seus jongos e instrumentos. Até quando, Governador, insistirão nessa política de desrespeito ás crianças do Rio de Janeiro. Não seria a hora de usar um pouco de respeito e
inteligência?