terça-feira, 24 de novembro de 2009

Jovem está mais exposto à violência fora das metrópoles

Cidades do Norte e Nordeste têm pior desempenho em levantamento; São Paulo é capital mais bem avaliada estadao.com.br

SÃO PAULO - Estudos do Ministério da Justiça (MJ) e Fórum Brasileiro de Segurança Pública divulgados nesta terça-feira, 24, indicam que o jovem que vive nas grandes metrópoles do País está menos exposto à violência do que aquele que reside em cidades menores.


Segundo a pesquisa, dos 266 municípios com mais de 100 mil habitantes, apenas 10 apresentam um elevado grau de vulnerabilidade dos jovens de 12 a 29 anos à violência - e nenhum é capital, embora alguns pertençam às regiões metropolitanas de seus Estados.



De acordo com os dados, Itabuna (BA), Marabá (PA), Foz do Iguaçu (PR), Camaçari (BA), Governador Valadares (MG), Cabo de Santo Agostinho (PE), Jaboatão dos Guararapes (PE), Teixeira de Freitas (BA), Serra (ES) e Linhares (ES) são as cidades onde os jovens brasileiros estão mais expostos à criminalidade.
Veja todo o ranking aqui

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Em Porto Alegre eu voto assim!




quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Triste, tão

Triste tão tão tão
Anibal Beça poeta, irmão da paz
Triste, triste, triste, jaz
Tem os versos que nos deixa
a vida tão tão tão
triste tão, tão triste tão

leia aqui poema de Benny Fanklin pra Aníbal

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Porque Luiz Inácio desagrada Caetano Veloso

por Marta Peres, Professora da UFRJ



Grande artista, não faz falta a Caetano Veloso um diploma de nível superior. Seus recentes comentários injuriosos a respeito do presidente com a maior aprovação da História do Brasil são indiscutivelmente coerentes - com sua visão de mundo, com a visão da classe a que pertence, assim como dos meios de comunicação que as constroem incansavelmente, bloqueando qualquer ensaio de questionamento ao seu insistente pensamento único.

Ao se referir a Lula como ‘analfabeto’, o termo está sendo utilizado de forma equivocada, pois ‘analfabetismo’ significa ‘não saber ler nem escrever’. Imagino que ele esteja se remetendo, de maneira exagerada, ao fato de Lula não ter diploma de graduação, coisa que o compositor tampouco possui. Esse tipo de exigência não é nem mesmo cogitada ante outros artistas geniais como Milton, Chico, Cora Coralina... Gilberto Gil, ex-ministro do governo Lula, graduou-se, mas não em música... ‘Ah, mas eles são artistas...’. E não seria a Política uma arte? Um pouco de Platão e Aristóteles não faz mal a ninguém...

Quanto à suposta ‘cafonice’ de nosso presidente, situado na revista americana Newsweek em 18° lugar entre aspessoas mais poderosas do mundo, Pierre Bourdieu (1930-2002) nos traz uma contribuição preciosa. De origem campesina, como Lula, o sociólogo francês criou conceitos que desmoronam o velho chavão do ‘gosto não se discute’. Para Bourdieu, não só se deve discutir, como estudar, compreender, aquilo que se trata de, mais que uma questão de ‘classe’, uma questão de ‘classe social’. Além do enorme abismo do ponto de vista propriamente econômico, os ‘gostos diferenciadores’ , referentes ao ‘estilo de vida’, consistem na maior marca de violência simbólica e num fundamental instrumento de legitimação da dominação das classes dominadas pelas dominantes. Não somente é desigual a distribuição de renda numa sociedade dividida em classes, mas também o acesso à educação formal e informal - o hábito de freqüentar museus, espetáculos de teatro, música, dança - à sofisticação do vocabulário, às regras de etiqueta, à constituição da apresentação pessoal, dos ‘modos’ e atitudes corporais. Obviamente, alcançar maior poder aquisitivo não possibilita a aquisição desse ‘capital cultural’ adquirido ao longo de toda uma vida no convívio com ‘outras pessoas elegantes’, ou seja, com a ‘elite’. Uma expressão precisa para designá-las, utilizada corriqueiramente na Zona Sul do Rio, é ‘gente bonita’ - como sinônimo de portadores de determinadas marcas de classe evidentes pelo vestuário, linguajar, cabelos, corpos, modos, atitudes. Bourdieu demonstrou os aspectos, às vezes despercebidos, da ‘construção social’ do gosto, seja o gosto de Caetano, das elites, dos que gostariam de ser elite, pretendendo se distinguir da massa supostamente ‘inculta’. Em outras palavras, as classes às quais pertencemos determinam, em grande parte, nossos critérios aparentemente inatos do que vem a ser elegância, numa relação de constante imitação, pelos ‘cafonas’, dos considerados detentores dos critérios de julgamento estético.

Lula não segue a corrente dos imitadores: mantém-se fiel à cafonice que o identifica com suas origens populares. Ah, como isso incomoda...

Embora seja assistido desde tempos imemoriais, lembrando que Norbert Elias estudou como a nobreza francesa era imitada por suas congêneres do resto da Europa no Ancien Régime, aqui, no Brasil, o fenômeno da distinção alcança as fronteiras do ‘nojo’, das reações fisiológicas desagradáveis, diante de tudo que possa remeter a atributos das classes populares, tudo que venha do ‘povão’.

Não é à toa que o REUNI – Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais que tem como objetivo "criar condições para a ampliação do acesso e permanência na educação superior, no nível da graduação, pelo melhor aproveitamento da estrutura física e de recursos humanos existentes nas Universidades Federais" – seja alvo de críticas ferrenhas, apesar de vir ao encontro de demandas por mais vagas já presentes nos protestos estudantis da França e do Brasil há quarenta anos, os quais, aqui, jamais sequer haviam sido objeto de atenção pelos governos. A demanda por cidadania e não por privilégios restritos é assunto que dá nojo, dá ‘gastura’, como se fala no interior do Brasil. Mas isso são outros quinhentos.. .

Embora o acesso universal à educação deva ser uma meta, podemos questionar – como muitos eminentes acadêmicos questionam – que a universidade seja a única fonte de conhecimento legítimo, sob o risco de repetirmos, em outros moldes, o papel de detentora do saber exercido pela Igreja Católica Medieval. O que seria de nós sem a contribuição inestimável de tantos notáveis que por ela não passaram?

Pode-se argumentar, contudo, que o referido compositor não tem preconceito de classe ou contra a falta de diploma, pois pretende votar em Marina Silva que, como Caetano, não possui graduação, e que, como Lula, tem origem humilde. (O curioso é que, sendo a candidata à sucessão de Lula uma economista, dessa vez, a mesma é cobrada por não possuir mestrado e acusada de ter lutado contra a ditadura militar: sempre inventarão motivos contrários a políticas públicas que ferem ideais de distinção de classe). Ao contrário do que parece, os atributos de Marina caem como uma luva para nossa conservadora classe média leitora do Globo e da Veja e que jamais se assumirá preconceituosa: portar a nobre e indignada bandeira da causa verde faz disparar sua pontuação no quesito ‘elegância’. Os que se preocupam ardentemente com a possibilidade de vida de seus netos e bisnetos são tocados em seu íntimo pelas questões ligadas à salvação das florestas.

Só que, mais uma vez, como a História sempre ajuda a enxergar, o buraco – na camada de ozônio – é mais embaixo: a destruição do planeta é a consequência inexorável de um sistema perverso que nele vem se instalando há alguns séculos. Ao longo de suas notáveis transformações, atingiu um ponto em que passou a se dar conta de seu próprio potencial de destruição e de identificar na preocupação com a natureza uma boa – e quem sabe, lucrativa - causa.

Do ponto de vista das chamadas ‘Gerações’ de Direitos Humanos, ao longo dos desdobramentos do capitalismo, a causa ecológica nasceu como a terceira filha. Enquanto a primeira, a segunda e a terceira gerações são identificadas com os ideais da Revolução Francesa - Liberdade, Igualdade e Fraternidade - a quarta, mais recente, relaciona-se a questões da Bioética e aos movimentos de segmentos minoritários ou discriminados da sociedade. A liberdade refere-se aos direitos civis e políticos, chamados de ‘direitos negativos’, pois limitam o poder exorbitante do Estado, que deve deixar o indivíduo viver e atuar politicamente. A igualdade consiste na luta pelos direitos sociais, culturais, econômicos, e demandam uma atuação ‘positiva’ do Estado no sentido de realizar ações que proporcionem condições de acesso de todos os indivíduos à educação, saúde, moradia, assistência social, dignidade no trabalho. Finalmente, a fraternidade esta ligada à ecologia, à preocupação com o destino da humanidade, irmanada por sua condição de habitante do planeta Terra.

Como se situaria o Brasil nessa História? Não vivemos mais no tempo de Marx, das jornadas de trabalho de 18 horas que não poupavam mulheres e crianças caindo mortas de fome ao redor das grandes máquinas sujas das fábricas. Hoje, longos tentáculos buscam mão de obra barata como a planta se dirige à luz do sol e os dejetos – da poluição e os seres humanos excluídos da participação em suas benesses - são escondidos do campo de visão dos que têm ‘bom gosto’. Depois de destruir suas próprias florestas, os países ricos se preocupam e ditam regras da etiqueta politicamente correta aos pobres, abraçando a ‘causa ecológica’ com a mesma eloqüência que ontem defenderam que a ‘mão invisível do mercado’ traria a felicidade geral. Hoje, uma mão visível segura imponente a bandeira do orgulho verde. Porém, o corpo do qual faz parte constitui-se de fome, miséria, doença, condições abaixo de qualquer noção de dignidade da pessoa humana. A bandeira parece ser de um médico, mas o sujeito que a segura é um ‘elegante’ monstro. Chega a ser apelativo falar em salvar o planeta tirando de contexto uma causa que ninguém ousará contestar. Mas que tal pesquisar casos concretos de vínculos incontestáveis entre partidos verdes de diferentes países com os setores mais conservadores das respectivas sociedades? Visualizando a imagem do monstro, de braços dados com uma chiquérrima Brigitte Bardot salvando animais, faz todo sentido. A Bela e a Fera...

De modo algum defendo qualquer teleologia e que tenhamos que passar por fases que os outros já passaram. Nem que os sete anos de Governo Lula tenham se proposto a enfrentar bravamente, contra tudo e contra todos, o capitalismo que domina quase toda a superfície do planeta. Ninguém falou em Revolução, aliás, não era esse o combinado. Apenas assisto a um esforço hercúleo de instaurar políticas que ferem o coração desses mecanismos de violência, real e simbólica, que o julgamento do que é ou não cafona só vem a perpetuar, no sentido de minimizar o enorme fosso que separa os que têm e os que não têm acesso a conquistas históricas impreteríveis do Ocidente, independentemente de obediência a qualquer cronologia, identificadas com os direitos humanos: combate à fome à miséria, acesso universal à educação, à energia elétrica, diminuição da desigualdade ímpar que nos assola. Fraternidade, também quero, mas junto com a Liberdade, e principalmente, o que mais nos falta, Igualdade! Não igualdade no sentido anatômico, igualdade de condições, junto com a quarta geração.

Não indignar-se com a miséria, agarrar-se ferrenhamente a seus privilégios, assim como espernear diante de sinais de mudança, faz parte do aprendizado de cegueira, inércia e arrogância por que passam nossas elites com seu gosto sofisticado. Mas ao contrário de um regime de concordância geral, o ideal de democracia é caracterizado justamente pela coexistência de opiniões diversas a respeito das políticas do governo. À insatisfação proveniente de certo campo ideológico correspondem, certamente, avanços jamais assistidos na História do Brasil.
Com vínculos ideológicos resumidos na figura de ACM, nutridora de uma ordem social desigual desde 1500, existe uma indiscutivelmente sincera elite baiana à qual, desagradar, é sinal de que Lula está no caminho certo!

sábado, 14 de novembro de 2009

Vissungo é isso!




Sou fã de carteirinha!

veja e ouça o clipe no tubo!

Leia a matéria no overmundo!

domingo, 8 de novembro de 2009

espetáculo!

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Ex-comunista repete a ditadura militar

Pensamentos indignados de Vovó Marinalva:
Quando roubaram em 1966 o patrimônio dos trabalhadores nos diversos institutos de aposentadoria e pensão (os iapês), os golpistas de 64 no Brasil começaram cassando os diretores eleitos pelos associados. Velha receita para roubarem o patrimônio coletivo de livres associados. A corja de espertos é orientada agora por ex-comunista, que só não é pior que o capeta porque esse ainda não teve existência provada.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Um trem que abala





De surpresa me pegaram dum jeito maneiro ligeiro sem volta e levaram dia 21 meus versinhos pro teatro num sarau picante de noite que riram, e umas até gargalharam e outras pessoas também disseram, tenho as provas todas, que foram pai e filha, ele o homem que me criou, Adroaldo Bauer, ela, guriazinha que se cagava toda de medo do escuro agora um mulherão que dá nó em pingo dágua e baba na boca de gente muita. Fiquei agradada, gratinada e feliz de mais da conta, tchê.
Agradecida.
Saúde e sucesso, papá Bauer e mana Helena Júlia.



Beijinhos berlinenses da Juli .







ligeiro, passa


cegada fico


bestificada esperando


um trem de nada


numa parada alguma


pra lugar algum...


sei apenas que virá...


num presente ainda futuro.






sempre será tudo ou nada



sem pressa, fico e me afogo


refogada em fogo


salgada toda ao mar


destrambelhada tomo uma vaca,


bebo nada, a mula empaca na braçada,


Aquecem dores geladas


fortalezas desaparecidas,


da solidão deserdadas


exposta à radiação das pedradas


saio muito devagar, chumbada


desculpada das olhadelas


feitas olheiras desmazeladas


às escuras e claras desfeitadas


a vida escancarada escarrada


em pleno solasolaço desavoada


sem mais aventadas risadas


no tète-à-tête desenganada


pouco dada, guria encorporada


a prazeres evanescentes ou nada


álcool, gasosa, encanzinada


amansada na entrada enfeitada


sou quem me cria e até descuidada


presa ao mundo, sem ser apressada,


só quero ser amada, como ser, amada


sem essa que amo só o que penso


penso é que devo ser muito amada






Inveja é mato





Nem sei se sei o que sei ao cabo


Ou se tempo houve que soube


No fundo nem é papo profundo


Tá tudo errado e é papo furado


Empapado, ensopado, lavado


Ensaboado, aprofundado nem






Entanto



mesmo sem nada, nos vamos


porquanto a vida é encanto


se fica após o pranto


acalanto brando da existência


solução morrer não é à vida


que intervalo é e vale, vale, vale...


mesmo em lágrimas e demência






Atreve-te a mais!





Concluem que de ti apenas meus olhos dão contas


não traduzem os encerrados em suas vidas


no círculo pequeno da inexistência


ser sem


Servida loucamente suave,


para quem se atreve!


...gosto disso,


gosto de ti,


gosto disso,


gosto de gostar


de quem disto gosta


gosto de ti,


gosto de gostar de ti,


o gosto teu é doce


isso está de um modo gostoso


que vou me lambuzar


suavemente, sim, suave


lambuzadamente

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Tudo que pelo natural da terra se ainda faça será pouco

Jaikuaa: Prestar atenção, escutar

O projeto Jaikuaa: por meio da fotografia e do vídeo trabalha com a instrumentalização poético-tecnológica visando a produção de vídeo e fotografias por indígenas de Tekoá Nhundy, aldeia Mby'a Guarani, Viamão, sob orientação de professores, alunos e egressos da UFRGS, em parceria com a Escola Estadual de Ensino Fundamental Indígena Karaí Nhe'e Katu e a Associação Guarani Pavẽ Nhemba'eapo.
Oficinas semanais são realizadas na aldeia e dela participam 30 integrantes. Nas oficinas os participantes aprendem o uso da câmera escura, a produção de fotografias pinhole e de vídeo digital que geram um panorama áudio-visual a partir e sobre a relação dos grupos sociais com seu entorno, em um contexto interétnico. Jaikuaa estimula a que os envolvidos se debrucem sobre seu cotidiano e imaginário, refletindo sobre eles e os transformando em histórias audiovisuais, mediante diversas trocas simbólicas e conhecimentos

Pessoas queridas, um dos vídeos produzidos na Fundação Iberê Camargo, por ocasião da exposição Dédale, já está no nosso blog:

http://jaikuaa.blogspot.com

O trabalho é dos bolsistas Anelise Garcia, Paula Biazus e Rafael Johan em projeto orientado pela professora Cláudia Zanatta.
É Extensão Universitária viabilizado pelo CINTED/UFRGS e conta com a parceria da Associação Guarani Pavẽ Nhemba'eapo e da Escola Estadual de Ensino Fundamental Indígena Karaí Nhe'e Katu.

sábado, 17 de outubro de 2009

trem que abala


ligeiro, passa


cegada fico
bestificada
esperando um trem de nada
numa parada alguma
pra lugar algum...
sei apenas que virá...
num presente ainda futuro.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Defenda-se o MST !

A ocupação da fazenda Santo Henrique e destruição de parte da plantação
de laranja pelo MST mais uma vez evidenciaram o impasse da reforma
agrária, via assentamento. O ocorrido se deu no dia 28 de setembro, mas
a ampla divulgação, campanha dos meios de comunicação e mobilização
parlamentar do PSDB e DEM se deram a partir de 7 de outubro, quando a
liminar de desocupação já havia se cumprido.

Dois problemas envolvem a investida de criminalização do MST:
1. A promessa do governo Lula de modificar os índices que medem a
produtividade da propriedade agrária;
2. A CPI pretendida pelo DEM e PSDB, sob a justificativa de que o MST age na ilegalidade, usando dinheiro público. De um lado, pretende-se barrar a mudança do índice e,
de outro, eliminar as verbas destinadas às cooperativas dos sem-terra.

Certamente, são dois aspectos da luta política no seio do Estado, que
não passam de reflexos do choque dos camponeses organizados pelo MST com
latifundiários e agroindustriais.

A nova CPI é a terceira tentativa da bancada ruralista, orquestrada por
Ronaldo Caiado e Kátia Abreu, ambos do DEM, de incriminar o MST e abrir
caminho para o colocar na ilegalidade.

As condições políticas ainda não permitiram que a oligarquia latifundiária, que hoje congrega a velha burguesia agrária e a moderna burguesia agroindustrial, alcance esse
objetivo antidemocrático. Mas se caminha para isso.

Lula tem conseguido brecar os movimentos sociais utilizando-se das
ilusões características de um governo popular, do assistencialismo e das
manobras políticas, apoiadas pelas burocracias sindicais e pelas de
movimentos. O que lhe tem dado supremacia sobre a oposição concentrada
pelo PSDB e DEM.

Eis por que a luta de classe no campo que opõe grandes proprietários e sem-terra se expressa nas divisões burguesas no Estado.

De um lado, DEM e PSDB atacam o MST procurando sua criminalização, de
outro travam a disputa com o governo, exigindo que este abandone a
ambigüidade na questão repressiva aos sem-terra.

A grande imprensa, tendo à frente "O Estado de S. Paulo", potencia a
política do DEM e PSDB, constituindo-se em porta-voz partidário.

A campanha se dirige a convencer a população de que o MST é formado por
quadrilheiros e que os latifundiários e agroindustriais são agentes do
progresso econômico-social. Cria-se um clima nacional de condenação
político-social do MST para desfechar a repressão.

Imagine o delegado encarregado do processo contra os ocupantes da Fazenda Santo Henrique
declarar ao "O Estado de S. Paulo" que "foi parado na rua por moradores
que querem a punição dos culpados"!

O ladrão Paulo Maluf acusa o MST de "horda de bandidos que nada mais fazem do que terrorismo".

A Cutrale ocupou terras públicas e as grilou.

Desde 2006, tramita na Justiça de Ourinhos uma ação do Incra contra a apropriação da Cutrale da propriedade pertencente à União.

Em abril de 2008, o MST ocupou a fazenda denunciando o jogo que se faz na Justiça, que quase como norma dá ganho de causa ao poder econômico.

A recente ocupação foi um recurso dos sem-terra para mostrar que a Cutrale continua a explorar as terras da União como se lhe pertencessem.

É necessário denunciar a propaganda abusiva contra os camponeses, rechaçar a repressão, combater a criminalização do MST e exigir o fim da vergonhosa CPI.


Diretoria da APROPUC - vá ao sítio dos professores por aqui

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Rio 2016: A política no centro da vitória brasileira

por Tarso Genro*

Engana-se quem pensa que a escolha do Rio de Janeiro para sediar as olimpíadas de 2016 tenha obedecido a critérios meramente “técnicos”; seja na área dos transportes, infra-estrutura, logística, setor hoteleiro etc. Pude constatar que a escolha de um país para sediar os Jogos Olímpicos é uma decisão principalmente política.

Trata-se da definição de um grande evento econômico e esportivo internacional, permeada por relações políticas e diplomáticas, que expressam um pedaço do cenário geopolítico mundial. A vitória do Brasil, além do esforço de autoridades desportivas e personalidades do esporte nacional, foi fruto do prestígio internacional do Presidente Lula e do sucesso de seu governo.

A delegação brasileira que vivenciou a emoção da escolha do Rio em Copenhague era, de longe, a mais vibrante e articulada. O excelente trabalho de preparação, liderado pelo Ministro do Esporte, Orlando Silva, foi coroado pelo brilhante desempenho da comitiva brasileira, tendo à frente o Presidente Lula.

Este desempenho foi decisivo para o convencimento dos “eleitores” indecisos nos momentos finais da escolha.

A presença do Presidente do Banco Central do Brasil, Henrique Meirelles, reforçou a impressão já consolidada de que o Brasil foi um dos países mais bem sucedidos no enfrentamento à crise econômica.

A expectativa de o país se tornar a quinta economia do mundo na próxima década serviu para soldar a confiança nas instituições do país.

O tema da segurança foi rapidamente superado, a partir da exposição consistente de uma estratégia, já testada, de segurança em grandes eventos e, também, em função do compromisso do governo federal com a consolidação das diretrizes do Pronasci. A firmeza do governador Sergio Cabral quanto ao aprofundamento das experiências de policiamento comunitário no Rio deslocou, rapidamente, o tema da segurança para um patamar secundário.

O equilíbrio institucional entre as três esferas de governo e a unidade político-administrativa dos entes federados foi um trunfo inestimável. Mais uma vez, atestamos o quanto fez bem ao Rio de Janeiro a superação da antiga visão paroquial, que afastou o Rio dos grandes temas nacionais por tantos anos.

O Rio de Janeiro, mais do que nunca, demonstrou a força de seu reposicionamento na Federação e novas perspectivas se abrem agora para a retomada do Rio como ator decisivo para a consolidação da República e da democracia em nosso país.

Foram decisivas a altivez da política externa do Brasil, a solidez de nossa economia, o papel de liderança regional e a consistência de nossas instituições democráticas. A política presidiu a vitória brasileira.

E não se trata aqui de pretender angariar algum dividendo eleitoral com esta afirmação. Certamente, não será este fato o que decidirá as eleições presidenciais de 2010. Até por que todas as correntes políticas e ideológicas apoiaram a candidatura do Rio.

O que, no entanto, não pode deixar de ser dito neste momento, é que o país venceu por que sua estatura internacional foi profundamente alterada nos últimos anos.

A imagem do Brasil no exterior não é mais a de uma promessa bloqueada pela mediocridade de seus governantes. O país é hoje protagonista dos grandes temas mundiais. Já houve quem dissesse que, dentre os Brics, o Brasil é o país com maior potencial, pois é o único a reunir crescimento econômico, imensas reservas energéticas e minerais e democracia consolidada.

Que as Olimpíadas de 2016 simbolizem o ponto culminante desta grande virada do país rumo a uma sociedade justa, equilibrada e plenamente desenvolvida.

________
*O Ministro da Justiça, Tarso Genro, integrou a comitiva brasileira que acompanhou a vitória do Rio em Copenhague.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Então tá. Bacilos Danregularis não são merda!

Leia a asessora de relações públicas da empresa

“Meu nome é Aline Almeida, trabalho em uma agência de relações públicas, a Ketchum Estratégia, e faço assessoria da Danone.
Nos últimos dias, percebemos que alguns fóruns e blogs, reproduziram textos sobre o iogurte Activia da Danone e sobre o bacilo DanRegularis. Gostaríamos de esclarecer algumas informações que estão sendo incorretamente publicadas: o DanRegularis é o nome comercial do bacilo, exclusivo da Danone, registrado com nome científico Bifidobacterium animalis, cepa DN 173 010, no Instituto Pasteur, em Paris e não faz parte da flora intestinal nativa de humanos. Esse gênero de bactéria não apresenta nenhuma característica que irrite ou agrida a mucosa intestinal.
Percebemos também nos textos divulgados que algumas informações ligadas à origem e ação desta bactéria são incorretas e, queremos explicar o porquê:

• O Bifidobacterium animalis DN 173-010 não faz parte da flora intestinal nativa de humanos, não compõem suas fezes e, desta forma, não poderia ter sido isolada deste material.
• A Danone esclarece que a bactéria Bifidobacterium animalis DN 173-010, conhecida como probiótico DanRegularis, é obtida da replicação em meio de cultura estéril, da mesma forma que outros fermentos utilizados em iogurtes, queijos e pães. A bactéria está depositada na coleção de probióticos do Instituto Pasteur, em Paris, sob o número de registro I – 2494. Desta forma, o probiótico que Activia contém é uma replicação dessa bactéria.
• Outra afirmação que esclarecemos é a de que o probiótico DanRegularis não tem efeito laxante, ao contrário do que afirma o texto. O produto não provoca irritação na mucosa do intestino e não tem efeito diarréico, como os laxantes. O efeito do probiótico DanRegularis consiste em aumentar a produção de ácidos graxos de cadeia curta, abaixando assim o PH intraluminal, estimulando o peristaltismo, que são os movimentos musculares que movem o bolo alimentar pelo trato digestivo.
• O iogurte Activia é registrado no Ministério da Agricultura e possui diversos estudos clínicos, realizados pelo departamento de pesquisas da Danone e por diversas universidades do mundo, publicados nas mais reconhecidas revistas científicas, comprovando o benefício do produto.
• O iogurte Activia está presente em mais de 40 países e, aqui no Brasil, está presente desde janeiro de 2004. A empresa, líder mundial de produtos lácteos frescos e água mineral, presente em mais de 120 países, é comprometida em levar saúde e nutrição aos seus consumidores e o iogurte Activia é um exemplo disso.

Por todas essas razões, pedimos que os fatos aqui colocados também sejam considerados em seu veículo.

Obrigada pela atenção e, se tiver qualquer dúvida, por favor, entre em contato. Meu email é aline.almeida@ketchum.com.br .

Um abraço
Aline”

domingo, 4 de outubro de 2009

sempre será tudo ou nada

detalhe trabalhado em foto de Cida Almeida

sem pressa, fico e me afogo
refogada em fogo salgada
toda ao mar destrambelhada
tomo uma vaca, bebo nada,
a mula empaca na braçada,
Aquecem dores geladas
fortalezas desaparecidas,
da solidão deserdadas
exposta à radiação das pedradas
saio muito devagar, chumbada
desculpada das olhadelas
feitas olheiras desmazeladas
às escuras e claras desfeitadas
a vida escancarada escarrada
em pleno solasolaço desavoada
sem mais aventadas risadas
no tète-à-tête desenganada
pouco dada, guria encorporada
a prazeres evanescentes ou nada
álcool, gasosa, encanzinada
amansada na entrada enfeitada
sou quem me cria e até descuidada
presa ao mundo, sem ser apressada,
só quero ser amada, como ser, amada
sem essa que amo só o que penso
penso é que devo ser muito amada

Cadela que ladra 2

que que é isso, Fernandinho?

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Que merda são bacilos Danregularis?!

Vovó Marinalva, de um tempo em que se amarrava cachorro com lingüiça e tinha trema nela, na palavra, não em vovó, que não tem assento no nome mas poderia estar em qualquer academia de sapiência, dizia:
- não coma merda só porque milhões de moscas o fazem. Seja Maria, mas não carece de ir com as outras se não queira e não tiver prazer de ir. Vá só, antes que mal acompanhada, lá pode ter uma companhia boa pra você voltar ou mesmo ficar. E dizia também que seguro morreu de velho e se a coisa fosse boa não precisava anunciar, que o povo ia saber.

Então, andaram proibindo umas propagandas de merda embalada para a venda direta ao consumidor, porque enganosas eram.
E a marca, das mais famosas, francesa a multinacional, cheia de charme, daquela gente esperta que faz a ave levemente faisonè (podre como o queijo fedorento
de nome aristocrático, o roquefort).

E é caso sério, mas de grana preta como cocô de cabrito. Ou não, como diriam caetanos aflitos:

Que são bacilos Danregularis

Bifidobacterium animalis é uma bactéria anaeróbica gram-positiva encontrada nos intestinos de animais de grande porte, inclusive humanos.

Qual seria então a fonte para se obter o famoso DanRegularis?

Não, você não está enganado. São as fezes humanas. Sim!

Mas o absurdo não pára aí.

Muitas empresas têm tentado registrar subespécies específicas como uma técnica de marketing,renomeando estas subespécies com rótulos pseudo-científicos.

A Danone (Dannon) protocolou como marca registrada a cepa DN 173.010, e comercializa o organismo nomeando-o de:
Bifidus Digestum (Reino Unido), Bifidus Regularis (EUA e México), Bifidubacterium Lactis ou B.L. Regularis (Canadá),
DanRegularis (Brasil) e Bifidus Artiregularis (Argentina, Áustria, Bulgária, Chile, Alemanha, Itália, Irlanda, Romênia, Rússia e Espanha).

Cientificamente, o nome correto desta cepa é Bifidobacterium animalis subsp.

animalis, strain DN-173.010.


O motivo pelo qual a bebida láctea Activia ajuda na digestão é o simples fato de que a bactéria adicionada pela Danone pertence a uma cepa mais irritante para a mucosa intestinal, que ao entrar em contato trata de expelir o mais rapidamente possível o material fecal.

Sejamos honestos. É saudável, a longo prazo, acostumar o sistema digestivo (ou mais modernamente, sistema digestório) humano a somente funcionar pela introdução de um material irritante/estimulante? Isso não seria viciar o organismo? Não seria mais coerente consumir mais fibras e menos pão branco, o verdadeiro culpado pelos problemas intestinais?

Alimento probiótico, eles dizem... Até quando vamos ser ingênuos (ou seria mais correto otários) de acreditar cegamente em propagandas e em campanhas de marketing??

A bebida láctea contendo Bifidobacterium animalis sp vem sendo comercializada pela Danone pelo mundo afora desde 1990, mas somente no Brasil tiveram a cara-de-pau de colocar o nome da marca Danone (DanRegularis) no nome científico registrado.

Mas, sinceramente, prefira as verduras ao leite de cocô doce.

A TAL DE BEBIDA LÁCTEA TEM MERDA MESMO!!!!!!

Marília C. Duarte
(Nutricionista)
São Paulo – SP


Anvisa proíbe propaganda do iogurte Activia (Folha Online):
http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u416847.shtml

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Yeda atochou!

sábado, 26 de setembro de 2009

Vida real 3


Nem sei se sei o que sei ao cabo
Ou se tempo houve que soube
No fundo nem é papo profundo
Tá tudo errado e é papo furado
Empapado, ensopado, lavado
Ensaboado, aprofundado nem

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Deveras a toda hora a primavera a fauna deflora

Arquitetura do medo

atrás de cada cabeça
umas grades escondem
sentenças desproferidas
desferidas em sociedade
ficam as casas guardadas
restam as almas partidas.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

inaudita maré

Ficoputasascalçasdentro
Quandosnadassãostudus
Ficusindamaisemputecida
Quandopraserdevsenãooé
Vouficandovivissencando
Seguindoavoltadaidafinda
Seguidaavindaconfundida
Ficavasendoditopornadaé
inauditaseriasereiadamaré

domingo, 20 de setembro de 2009

o olho da revolução cubana no cine bancários

sábado, 19 de setembro de 2009

vanessssss... é hoje, é hoje!

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Nostradamus (*)

Nostradamus morreu
Isso ele não previu
Viu o que ninguém
Coisas do ano 3000
Que em nada lhe serviu

Bombas, papas, terror
Tudo sem televisor
Viu o que ninguém viu
Coisas do ano 3.000
Que em nada lhe serviu

Por isso agora
Eu não quero nem olhar
Para frente e nem pra trás
Quero viver a minha história
Sem futuro e sem memória
Só o sol, a lua e o mar
Água, terra, fogo e ar
Respirar, caminhar
Não procurar.
_______
(*) Alexandre Brito, Ricardo Silvestrin, Ronald Augusto - Os PoETs

vem nova primavera, amor



se sonhas
é tão real
penso assim
e em ti
desde antes
fulminante
ataque letal
amante

se amo, perdôo
e amo e dou-me
ou me dôo ou condoo-me

Estou por um triz
pra ser e te fazer
amante mais feliz

Explodindo de paixão
talvez a primavera
antecipando o verão

terça-feira, 15 de setembro de 2009

entanto


mesmo sem nada, nos vamos

porquanto a vida é encanto
se fica após o pranto
acalanto brando da existência

solução morrer não é
à vida que intervalo é
e vale, vale, vale...

mesmo em lágrimas e demência

sábado, 12 de setembro de 2009

cometemos loucuras tantas em tinta


Afastem-se todas as trevas
que a musa convoca o infante
a ser adiante, um passo
a dar compasso ao coração
desconsolado era e faz
a vida agora ser arfante
ai, trevas, no primeiro verso
porque não vens com ele?
 
Não muito escorpião, mais libra,
quase virgem, persistente
inteligente, consistente, bonita
surpreendente, tão previsível
como pessoas imprevisíveis são
menino vou amar-te, antes de real
já te amava tão virtual éreis,
reais amores, mesmo sem cores
não prezava menos isso nem
das tuas embaraças troçava
sei não amar pessoas também,
assanhada, desassombrada,
além do amor, um pouco de dor,
sei bem disso, por assim seres,
agradecido por me quereres
é porque estou a teus pés
reais sentires são bons demais...
Se bem... não existem ainda
Porque deixam de acontecer
não negado é quase afirmado
se outro momento inexiste
nem um outro mundo há
tudo ruma para ser daqui,
Quando é e já foi, sincero
como te conheço e te quero
coraçãozinho fraco pelo sofrer...
fica acabrunhado, o tempo a correr
entendo, como entendo,
um quanto tanto e tonto
olhos são de cor castanhos
claros e o inusitado a acontecer,
não há o que deixar rolar
não será inusitado,
é plano tramado, pensado,
arquitetado, sonhado,
colimado a bem fadado
protegido do inusitado a acontecer
entre florinhas e estrelas
em campo relvado acordado
o sol tendo nos esperado
para amanhecer ali em guarda,
ao lado a noite toda acabrunhado
a lua parecia ter-se afastado
tanto brilho de ti irradiado
Ela tremelicava fria no céu
Tão de poucas luzes
cruzes, cruzes, cruzes
alvorecera medrada de medo,
que já chegava uma multidão
atrás de nós em disparada
antes só, agora sem solidão
apenas amplidão, um amplo vão,
nós sem amarração, vãos
desatados sem contestação
os desejos possíveis confirmados
idas a universos tão impossíveis
pois o possível é pra viver espanto,
susto, surtado, absorto, nunca solto
sentindo mais os sentidos todos
sem as amarras da razão
um dos meninos sonhadores
com o medo das muitas dores
guri marrento, das dores apartado
só os sonhos podem trazer
só os sonhos fazem viver
as vidas que nos fazem sonhar
e trazem os ventos as flores
arrancadas de seus amores
protegidas do relento elas,
desde as estufas cultivadas
agora ao vento velas soltas
naus insensatas amarras desatadas
insensatas! grita ai, ais o peito estufado
quais as ninfas convocadas
mais animados endeusados
além dos céus que desabam
no mar, as nuvens beijando
a amar te encontro
como se deve começar a amar
a sereia que serás do poeta
que a quer mulher, poema, poesia
tê-la entre os dentes, os braços
em laço sutil para sonhar desata
em firme compasso dispara
o coração, a alma voa, flutua
na paz tua, no teu ermo, tua herma
fluis no esplendor desses versos
fruímos tua essência, teu aroma
da lira delirante tanto ardor
de outros mares vindos, devenir,
de Roma, do contrário, do amor
disfarça verdades em utopias
do trabalhado e suado
expõe animias, faz alquimias
das gotículas do teu suor
que sendo teu não são frias
antes, quentes, termas, fêmeas
incandescentes completamente indecentes
em lascivas conquistas almas gêmeas
conscientes, queremos, sim, podemos,
mais e mais querer congruentes
transcendentes, complacentes
indulgentes, reciproca_mente
sim, indecentes, mas, inocentes
amantes, sobreviventes!
Que vejam! De inveja explodam!
recolham cacos e sementes
de sol poente e florinhas povoamos os céus
hoje estrelas do mar no chão
tornaram-se desse escarcéu
desse amoroso mundo imenso
profundo e denso sucesso
brindam a escuridão dos desvãos
propícia aos encontros febris
fabricados sob rosas e anis
sob alterosas e majestosas
imagens ainda não vistas
sequer pensadas, em vão
se as quer sopesadas
incompreensíveis a olhares curiosos
de mais duas ou três visões
sem qualquer versão
que nos olhem!
Que nos julguem!
 
Atreve-te a mais!
 
Concluem que de ti
apenas meus olhos dão contas
não traduzem
os encerrados em suas vidas
no círculo pequeno
da inexistência
ser sem Ser
vida loucamente suave,
 para quem se atreve!
...
gosto disso,
gosto de ti,
gosto disso,
gosto de gostar
de quem disto gosta
gosto de ti,
gosto de gostar de ti,
o gosto teu é doce
isso está
de um modo gostoso
que vou me lambuzar
suavemente, sim,
suave lambuzadamente
 
Eliz Anna Ribeiro e Juli da Luz Bauer

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

um mar de rosas vermelhas


Marcara aquele trágico encontro na esquina mais movimentada da cidade, porque conhecida e de fácil acesso. Ela chegaria de branco com uma rosa vermelha na mão. Para o mesmo dia, soube depois, o Movimento de Mulheres pela Libertação marcara um ato político, todas de branco com uma rosa vermelha.
Não! Desesperou-se.
Ele a procurou entre mil outras.
Não a achou.
Não desistiu.
Ficou até a manifestação acabar, esperançoso.
Nenhuma delas restou.
Sentou no cordão da calçada e chorou.
De longe, ela espreitava aquela dor, aquele desencanto, o desalentado espanto.
No entanto... não se aproximara.
Ele levantou... lento.
Juntou uma das tantas pétalas de rosas sobradas no chão.
Guardou no bolso do casaco.
Saiu cabisbaixo. Passo arrastado. Derrotado.
A mão que no ombro dele tocou era fina, firme, forte, as unhas pintadas de negro.
Então, ao virar-se, a surpresa o tomou.
Uma linda moça loura, de preto, com uma rosa amarela na mão.
Poderia supor que estaria assim vestida, com a flor desta cor?
Sim, quem pudesse pensar encontrar alguém desconhecido naquele mar de mulheres de branco com flores vermelhas na mão. Não pensara.
Ela alcançou-lhe sorrindo um lenço para secar as lágrimas... e deu-lhe a mão.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Manifesto de Repúdio à Desestruturação da Cultura em Porto Alegre

Recebi e, porque já foi diferente como se vê aqui, triste transcrevo:

A Coordenação do 12º Festival de Música e Poesia Mário Quintana, inscritos, participantes, usuários do Parque Chico Mendes, comunidade escolar do bairro Mário Quintana, integrantes da região nordeste de Porto Alegre, músicos da Grande Porto Alegre e demais interessados na promoção da cultura popular do Rio Grande do Sul
vem a público
REPUDIAR A DESESTRUTURAÇÃO DA CULTURA EM PORTO ALEGRE.
O Festival de Música e Poesia Mário Quintana é realizado já há 11 anos visando a promoção e incentivo da cultura e novos talentos originados na periferia da capital gaúcha e cidades vizinhas a este município. Infelizmente, pela primeira vez na história desse evento, tivemos a sequência desagradável de, inicialmente, transferirmos a data de realização com aviso da Secretaria de Cultura na antevéspera e, depois, na segunda data, no dia 30 de agosto de 2009, o total cancelamento do evento devido ao atraso em mais de três horas na chegada dos equipamentos.Esses fatos corroboram o total descalabro da Secretaria de Cultura e sua falta de comprometimento com a organização comunitária e cultura popular.
Não há como o gestor público eximir-se de responsabilidade frente a toda expectativa e prejuízos dos organizadores, usuários e comunidades do entorno do Parque Chico Mendes e grupos de geração de trabalho e renda, pois este evento fora agendado e confirmado com 6 (seis) meses de antecedência e com a anuência de representantes da Secretaria Municipal de Cultura.
O prejuízo público, nesse caso, não é apenas de credibilidade, mas também econômico, uma vez em que os materiais de divulgação e promoção do Festival foram conseguidos a partir da colaboração da Secretaria Municipal de Governança Solidária Local a qual, em última instância, utiliza recursos de todos nós, contribuintes de Porto Alegre.
Foi com extremo pesar e sob intensa ansiedade que tivemos de dispensar os jurados da
Associação de Jurados do Carnaval e Eventos Populares do Rio Grande do Sul
(AJUCEPERGS) , grupos de pagode e hip-hop que vieram de locais distantes, e as
crianças e seus responsáveis das oficinas da Associação NACIPAZ e da Escola
Municipal Chico Mendes.

TODOS FRUSTRADOS.

Este manifesto, portanto, tem os objetivos de externar o total descontentamento com a gestão municipal da cultura popular, de trazer a público tal fato calamitoso e alarmante que deve ser de preocupação para todo o setor cultural e demais cidadãos do município de Porto Alegre e, por último, de dividir toda a imensa carga emocional negativa por que passamos.
Esperamos que sejam tomadas medidas urgentes para que a cultura da periferia e a
valorização da organização comunitária adquiram o devido comprometimento do
gestor municipal.

A Coordenação do Projeto Chico Mendes na Paz
Associação Espaço Comunitário Natureza Cidadania e Paz - NACIPAZ
Associação de Jurados do Carnaval e Eventos Populares do Rio Grande do Sul - AJUCEPERGS
Escola Municipal de Ensino Fundamental Chico Mendes

domingo, 30 de agosto de 2009

ocupadestavatu tu tu tu


telecotecoticoetecoteco

durinspingui davuiu tiupis tapitiu
dinganingui ninguidingui psiu uiu
livines tanto tinteriti blus cabuiu
naviapito pita niviu nisiut intiutu
visasaviavisavi iniminhas tuiutitu
lavinha linhava alinhava a véiaia
ioioiaia vivivinha vaivem afuinha
dava um treco tecoteco tico tico
eco e cotele teco teteco leleco
etrole tiqueti disquite-me ninqui
nho quinzin di pudinzin piquinin
sissu fossi doutromundo erasssim
erassado eriçado estapeanteadim
tuti tui turituti entantan tantanti
tu tu tu tu tu... ocupadestavatu!

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

eu te queria vivo



Eu nunca te quis assim despido
assim tão frio, inerte, deitado
assim sem mais ardor, gelado

Eu nunca te quis assim violado
assim, pelas costas violentado
desse modo tenebroso alvejado.

Eu e tu queríamos a vida
plantar e cevar a vida
alimentar, fazer crescer

Queríamos eu e tu ter semeado
filhos, netos, frutos enrodeados
Te queria vivo, não assassinado

[preito a Elton Brum]

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Bases dos EUA limitam projeção do Brasil

América Latina

O cientista político Luiz Alberto Moniz Bandeira, um dos principais especialistas na história da diplomacia brasileira, analisa que "o objetivo da ampliação das bases (dos EUA) na Colômbia é restringir a projeção do poder político e militar do Brasil, frustrando iniciativas como a Unasul e o Conselho Sul-Americano de Defesa."


Moniz Bandeira: "A ampliação das bases na Colômbia não constitui uma iniciativa do presidente Barack Obama"

Em entrevista ao Terra Magazine, o professor titular de história política exterior do Brasil, na Universidade de Brasília, argumenta que o desenvolvimento dessas organizações multilaterais, que fomentam a integração regional, não interessa aos EUA.

"Essas instituições, que dão à América do Sul uma identidade própria, não convém aos Estados Unidos (...) A presença dos Estados Unidos sempre foi um fator de desestabilização em todas as regiões do mundo e seu objetivo com a ampliação das bases na Colômbia é fomentar um cisma e impedir a integração econômica e política da América do Sul", avaliou.

Autor de Fórmula para o caos: a derrubada de Salvador Allende, 1970-1973, Moniz Bandeira comenta a liberação de documentos inéditos pelo Departamento de Estado dos EUA. Entre as revelações, uma conversa entre os presidentes Emílio Garrastazú Médici e Richard Nixon, no Salão Oval da Casa Branca, em 9 de dezembro de 1971. O ditador Médici afirmou que o Brasil "estava trabalhando" pela derrubada do governo do chileno Salvador Allende.

Para Moniz Bandeira, a íntegra da conversa "não surpreende". "Colaboração realmente houve (entre Brasil e CIA), mas todo o processo de desestabilização do governo do presidente Salvador Allende foi financiado e conduzido pela CIA e pelos serviços de inteligência militar da Marinha e do Exército dos Estados Unidos. A participação do Brasil foi importante, mas secundária. Não foi fundamental".

Leia a entrevista e deixe abaixo a sua opinião:

A conversa entre os presidentes Richard Nixon e Emílio Garrastazu Médici, em 1971, exposta em papéis liberados pelo Departamento de Estado dos EUA, modifica com intensidade os relatos já existentes sobre o papel do Brasil no golpe militar chileno?

A revelação do memorandum da conversa entre o general Emílio Garrastazú Médici e o presidente Richard Nixon não surpreende. Era perfeitamente imaginável que os dois chefes de governo conversaram sobre o assunto, quando Médici visitou os Estados Unidos.

E conversaram não apenas sobre o Chile, como sobre o Uruguai, onde o Brasil, segundo o próprio Nixon revelou ao primeiro-ministro da Grã-Bretanha, ajudou a fraudar a eleição para evitar a vitória da Frente Ampla. Tudo isto está em meu livro Fórmula para o caos - A derrubada de Salvador Allende, lançado no ano passado, simultaneamente, no Brasil e no Chile (e este ano em Portugal).

Médici afirmou que o Brasil "estava trabalhando" pela sublevação das Forças Armadas do Chile. Como se deu esse entendimento com militares chilenos?

Os entendimentos foram efetuados através dos serviços de inteligência do Brasil, aos quais Médici encarregou a tarefa de ajudar a articulação do golpe, naturalmente em contacto com a CIA. O embaixador de Brasil no Chile, Antonio Cándido da Cámara Canto, era um homem de extrema direita e adversário do governo de Salvador Allende, mas o general Garrastazú Médici deixou a cargo dos militares a missão de articular com os militares chilenos e os dirigentes de Patria e Libertad, com a assistência da CIA, os planos para o golpe.

Eduardo Díaz Herrera, dirigente de Patria y Libertad desenvolveu um plano que envolvia o Serviço Nacional de Informações (SNI) e os serviços de inteligência do Exército, Marinha e Aeronáutica do Brasil. Ele e Manuel Fuentes estiverem em Brasília e lá se reuniram com altos oficiais das Forças Armadas, entre os quais o general João Batista Figueiredo, chefe da Casa Militar da Presidência e o coronel Venceslau Malta.

De acordo com o plano elaborado, se ocorresse uma cisão nas Forças Armadas, se o golpe não fosse institucional, as unidades militares insurgentes e as Brigadas Operativas y Fuerzas Especiales (BOFE) de Patria y Libertad, ocupariam as províncias do sul de Chile, apoiadas secretamente pelo Brasil e Argentina, cujas Forças Armadas lhes dariam assistência logística e o armamento necessário. Sobre isto escrevi em Fórmula para o caos com base na documentação brasileira.

Qual o nível de colaboração entre a ditadura brasileira e a CIA, na deposição de Salvador Allende?

Colaboração realmente houve, mas todo o processo de desestabilização do governo do presidente Salvador Allende foi financiado e conduzido pela CIA e pelos serviços de inteligência militar da Marinha e do Exército dos Estados Unidos. A participação do Brasil foi importante, mas secundária. Não foi fundamental.

Como o senhor avalia a política brasileira de liberação de documentos sobre a ditadura militar? Quais são os pontos que devem ser priorizados?

Os documentos do SNI, que não foram incinerados nos anos 1980, estão disponíveis para a pesquisa no Arquivo Nacional, seção regional de Brasília. Também os do CIEX. Mas os arquivos do CIE, CENIMAR e CISA, as Forças Armadas relutam em entregar ao Arquivo Nacional, não obstante a determinação decretada pelo presidente Lula.

Bases militares americanas na Colômbia

A ampliação das instalações militares americanas em território colombiano oferecem quais riscos para a segurança continental?

O objetivo da ampliação das bases na Colômbia é restringir a projeção do poder político e militar do Brasil, frustrando iniciativas como a Unasul e o Conselho Sul-Americano de Defesa. Essas instituições, que dão à América do Sul uma identidade própria, não convém aos Estados Unidos. Não se trata de risco para a segurança continental.

A presença dos Estados Unidos sempre foi um fator de desestabilização em todas as regiões do mundo e seu objetivo com a ampliação das bases na Colômbia é fomentar um cisma e impedir a integração econômica e política da América do Sul.

A ampliação das bases na Colômbia foi decerto planejada juntamente com a restauração da IV Frota no Atlântico Sul, visando a fortalecer a presença dos Estados Unidos na região e assegurar o controle de seus recursos naturais, como, por exemplo, a água e o petróleo.

Os EUA e a Colômbia caminham para o acordo bilateral. Isso será um erro diplomático do presidente Barack Obama na região?

A ampliação das bases na Colômbia não constitui uma iniciativa do presidente Barack Obama. Ele enfrenta séria oposição interna e não controla todo o aparelho de governo. Não tem muitas condições de reverter a influência do complexo industrial-militar. Atualmente quem pauta a política exterior dos Estados Unidos não é propriamente o Departamento de Estado, mas o Departamento de Defesa, o Pentágono.

A militarização da política exterior dos Estados Unidos, formalizada com a criação dos comandos militares, para as diversas regiões, inclusive a América Latina (USSouthern Command), tomou impulso com os atentados de 11 de setembro de 2001. Esses comandos atuam como consulados do Império Americano.

Caso se concretize a ampliação da presença militar americana, o Brasil deve reformular sua política para a Amazônia?

Não há o que reformular na política para a Amazônia como conseqüência da ampliação das bases americanas na Colômbia. Há muitos anos, militares dos Estados Unidos trabalham não só na Colômbia como nos demais países limítrofes da Amazônia. E as Forças Armadas estão conscientes da ameaça, ainda que pareça remota.

Todos os anos elas realizam operações de treinamento, tendo como primeira hipótese de guerra o enfrentamento com uma potência tecnologicamente superior no teatro de guerra da Amazônia.

Fonte: Terra Magazine

sábado, 22 de agosto de 2009

Nosso racismo é um crime perfeito

Kabengele Munanga denuncia a farsa da democracia racial, defende o sistema de cotas e discute o espaço do negro na sociedade.
Por Camila Souza Ramos e Glauco Faria

publicada originalmente na Revista Fórum

Fórum - O senhor veio do antigo Zaire que, apesar de ter alguns pontos de contato com a cultura brasileira e a cultura do Congo, é um país bem diferente. O senhor sentiu, quando veio pra cá, a questão racial? Como foi essa mudança para o senhor?

Kabengele - Essas coisas não são tão abertas como a gente pensa. Cheguei aqui em 1975, diretamente para a USP, para fazer doutorado. Não se depara com o preconceito à primeira vista, logo que sai do aeroporto. Essas coisas vêm pouco a pouco, quando se começa a descobrir que você entra em alguns lugares e percebe que é único, que te olham e já sabem que não é daqui, que não é como “nossos negros”, é diferente. Poderia dizer que esse estranhamento é por ser estrangeiro, mas essa comparação na verdade é feita em relação aos negros da terra, que não entram em alguns lugares ou não entram de cabeça erguida.
Depois, com o tempo, na academia, fiz disciplinas em antropologia e alguns de meus professores eram especialistas na questão racial. Foi através da academia, da literatura, que comecei a descobrir que havia problemas no país. Uma das primeiras aulas que fiz foi em 1975, 1976, já era uma disciplina sobre a questão racial com meu orientador João Batista Borges Pereira. Depois, com o tempo, você vai entrar em algum lugar em que está sozinho e se pergunta: onde estão os outros? As pessoas olhavam mesmo, inclusive olhavam mais quando eu entrava com minha mulher e meus filhos. Porque é uma família inter-racial: a mulher branca, o homem negro, um filho negro e um filho mestiço. Em todos os lugares em que a gente entrava, era motivo de curiosidade. O pessoal tentava ser discreto, mas nem sempre escondia. Entrávamos em lugares onde geralmente os negros não entram.
A partir daí você começa a buscar uma explicação para saber o porquê e se aproxima da literatura e das aulas da universidade que falam da discriminação racial no Brasil, os trabalhos de Florestan Fernandes, do Otavio Ianni, do meu próprio orientador e de tantos outros que trabalharam com a questão. Mas o problema é que quando a pessoa é adulta sabe se defender, mas as crianças não. Tenho dois filhos que nasceram na Bélgica, dois no Congo e meu caçula é brasileiro. Quantas vezes, quando estavam sozinhos na rua, sem defesa, se depararam com a polícia?
Meus filhos estudaram em escola particular, Colégio Equipe, onde estudavam filhos de alguns colegas professores. Eu não ia buscá-los na escola, e quando saíam para tomar ônibus e voltar para casa com alguns colegas que eram brancos, eles eram os únicos a ser revistados. No entanto, a condição social era a mesma e estudavam no mesmo colégio. Por que só eles podiam ser suspeitos e revistados pela polícia? Essa situação eu não posso contar quantas vezes vi acontecer. Lembro que meu filho mais velho, que hoje é ator, quando comprou o primeiro carro dele, não sei quantas vezes ele foi parado pela polícia. Sempre apontando a arma para ele para mostrar o documento. Ele foi instruído para não discutir e dizer que os documentos estão no porta-luvas, senão podem pensar que ele vai sacar uma arma. Na realidade, era suspeito de ser ladrão do próprio carro que ele comprou com o trabalho dele. Meus filhos até hoje não saem de casa para atravessar a rua sem documento. São adultos e criaram esse hábito, porque até você provar que não é ladrão... A geografia do seu corpo não indica isso.
Então, essa coisa de pensar que a diferença é simplesmente social, é claro que o social acompanha, mas e a geografia do corpo? Isso aqui também vai junto com o social, não tem como separar as duas coisas. Fui com o tempo respondendo à questão, por meio da vivência, com o cotidiano e as coisas que aprendi na universidade, depoimentos de pessoas da população negra, e entendi que a democracia racial é um mito. Existe realmente um racismo no Brasil, diferenciado daquele praticado na África do Sul durante o regime do apartheid, diferente também do racismo praticado nos EUA, principalmente no Sul. Porque nosso racismo é, utilizando uma palavra bem conhecida, sutil. Ele é velado. Pelo fato de ser sutil e velado isso não quer dizer que faça menos vítimas do que aquele que é aberto. Faz vítimas de qualquer maneira.

Revista Fórum
- Quando você tem um sistema como o sul-africano ou um sistema de restrição de direitos como houve nos EUA, o inimigo está claro. No caso brasileiro é mais difícil combatê-lo...
Kabengele - Claro, é mais difícil. Porque você não identifica seu opressor. Nos EUA era mais fácil porque começava pelas leis. A primeira reivindicação: o fim das leis racistas. Depois, se luta para implementar políticas públicas que busquem a promoção da igualdade racial. Aqui é mais difícil, porque não tinha lei nem pra discriminar, nem pra proteger. As leis pra proteger estão na nova Constituição que diz que o racismo é um crime inafiançável. Antes disso tinha a lei Afonso Arinos, de 1951. De acordo com essa lei, a prática do racismo não era um crime, era uma contravenção. A população negra e indígena viveu muito tempo sem leis nem para discriminar nem para proteger.

Revista Fórum - Aqui no Brasil há mais dificuldade com relação ao sistema de cotas justamente por conta do mito da democracia racial?
Kabengele - Tem segmentos da população a favor e contra. Começaria pelos que estão contra as cotas, que apelam para a própria Constituição, afirmando que perante a lei somos todos iguais. Então não devemos tratar os cidadãos brasileiros diferentemente, as cotas seriam uma inconstitucionalidade. Outro argumento contrário, que já foi demolido, é a ideia de que seria difícil distinguir os negros no Brasil para se beneficiar pelas cotas por causa da mestiçagem. O Brasil é um país de mestiçagem, muitos brasileiros têm sangue europeu, além de sangue indígena e africano, então seria difícil saber quem é afro-descendente que poderia ser beneficiado pela cota. Esse argumento não resistiu. Por quê? Num país onde existe discriminação antinegro, a própria discriminação é a prova de que é possível identificar os negros. Senão não teria discriminação.
Em comparação com outros países do mundo, o Brasil é um país que tem um índice de mestiçamento muito mais alto. Mas isso não pode impedir uma política, porque basta a autodeclaração. Basta um candidato declarar sua afro-descendência. Se tiver alguma dúvida, tem que averiguar. Nos casos-limite, o indivíduo se autodeclara afrodescendente. Às vezes, tem erros humanos, como o que aconteceu na UnB, de dois jovens mestiços, de mesmos pais, um entrou pelas cotas porque acharam que era mestiço, e o outro foi barrado porque acharam que era branco. Isso são erros humanos. Se tivessem certeza absoluta que era afro-descendente, não seria assim. Mas houve um recurso e ele entrou. Esses casos-limite existem, mas não é isso que vai impedir uma política pública que possa beneficiar uma grande parte da população brasileira.
Além do mais, o critério de cota no Brasil é diferente dos EUA. Nos EUA, começaram com um critério fixo e nato. Basta você nascer negro. No Brasil não. Se a gente analisar a história, com exceção da UnB, que tem suas razões, em todas as universidades brasileiras que entraram pelo critério das cotas, usaram o critério étnico-racial combinado com o critério econômico. O ponto de partida é a escola pública. Nos EUA não foi isso. Só que a imprensa não quer enxergar, todo mundo quer dizer que cota é simplesmente racial. Não é. Isso é mentira, tem que ver como funciona em todas as universidades. É necessário fazer um certo controle, senão não adianta aplicar as cotas. No entanto, se mantém a ideia de que, pelas pesquisas quantitativas, do IBGE, do Ipea, dos índices do Pnud, mostram que o abismo em matéria de educação entre negros e brancos é muito grande. Se a gente considerar isso então tem que ter uma política de mudança. É nesse sentido que se defende uma política de cotas.
O racismo é cotidiano na sociedade brasileira. As pessoas que estão contra cotas pensam como se o racismo não tivesse existido na sociedade, não estivesse criando vítimas. Se alguém comprovar que não tem mais racismo no Brasil, não devemos mais falar em cotas para negros. Deveríamos falar só de classes sociais. Mas como o racismo ainda existe, então não há como você tratar igualmente as pessoas que são vítimas de racismo e da questão econômica em relação àquelas que não sofrem esse tipo de preconceito. A própria pesquisa do IPEA mostra que se não mudar esse quadro, os negros vão levar muitos e muitos anos para chegar aonde estão os brancos em matéria de educação. Os que são contra cotas ainda dão o argumento de que qualquer política de diferença por parte do governo no Brasil seria uma política de reconhecimento das raças e isso seria um retrocesso, que teríamos conflitos, como os que aconteciam nos EUA.
Fórum - Que é o argumento do Demétrio Magnoli.
Kabengele - Isso é muito falso, porque já temos a experiência, alguns falam de mais de 70 universidades públicas, outros falam em 80. Já ouviu falar de conflitos raciais em algum lugar, linchamentos raciais? Não existe. É claro que houve manifestações numa universidade ou outra, umas pichações, "negro, volta pra senzala". Mas isso não se caracteriza como conflito racial. Isso é uma maneira de horrorizar a população, projetar conflitos que na realidade não vão existir.
Fórum - Agora o DEM entrou com uma ação no STF pedindo anulação das cotas. O que motiva um partido como o DEM, qual a conexão entre a ideologia de um partido ou um intelectual como o Magnoli e essa oposição ao sistema de cotas? Qual é a raiz dessa resistência?
Kabengele – Tenho a impressão que as posições ideológicas não são explícitas, são implícitas. A questão das cotas é uma questão política. Tem pessoas no Brasil que ainda acreditam que não há racismo no país. E o argumento desse deputado do DEM é esse, de que não há racismo no Brasil, que a questão é simplesmente socioeconômica. É um ponto de vista refutável, porque nós temos provas de que há racismo no Brasil no cotidiano. O que essas pessoas querem? Status quo. A ideia de que o Brasil vive muito bem, não há problema com ele, que o problema é só com os pobres, que não podemos introduzir as cotas porque seria introduzir uma discriminação contra os brancos e pobres. Mas eles ignoram que os brancos e pobres também são beneficiados pelas cotas, e eles negam esse argumento automaticamente, deixam isso de lado.
Fórum – Mas isso não é um cinismo de parte desses atores políticos, já que eles são contra o sistema de cotas, mas também são contra o Bolsa-Família ou qualquer tipo de política compensatória no campo socioeconômico?
Kabengele - É interessante, porque um país que tem problemas sociais do tamanho do Brasil deveria buscar caminhos de mudança, de transformação da sociedade. Cada vez que se toca nas políticas concretas de mudança, vem um discurso. Mas você não resolve os problemas sociais somente com a retórica. Quanto tempo se fala da qualidade da escola pública? Estou aqui no Brasil há 34 anos. Desde que cheguei aqui, a escola pública mudou em algum lugar? Não, mas o discurso continua. "Ah, é só mudar a escola pública." Os mesmos que dizem isso colocam os seus filhos na escola particular e sabem que a escola pública é ruim. Poderiam eles, como autoridades, dar melhor exemplo e colocar os filhos deles em escola pública e lutar pelas leis, bom salário para os educadores, laboratórios, segurança. Mas a coisa só fica no nível da retórica.
E tem esse argumento legalista, "porque a cota é uma inconstitucionalidade, porque não há racismo no Brasil". Há juristas que dizem que a igualdade da qual fala a Constituição é uma igualdade formal, mas tem a igualdade material. É essa igualdade material que é visada pelas políticas de ação afirmativa. Não basta dizer que somos todos iguais. Isso é importante, mas você tem que dar os meios e isso se faz com as políticas públicas. Muitos disseram que as cotas nas universidades iriam atingir a excelência universitária. Está comprovado que os alunos cotistas tiveram um rendimento igual ou superior aos outros. Então a excelência não foi prejudicada. Aliás, é curioso falar de mérito como se nosso vestibular fosse exemplo de democracia e de mérito. Mérito significa simplesmente que você coloca como ponto de partida as pessoas no mesmo nível. Quando as pessoas não são iguais, não se pode colocar no ponto de partida para concorrer igualmente. É como você pegar uma pessoa com um fusquinha e outro com um Mercedes, colocar na mesma linha de partida e ver qual o carro mais veloz. O aluno que vem da escola pública, da periferia, de péssima qualidade, e o aluno que vem de escola particular de boa qualidade, partindo do mesmo ponto, é claro que os que vêm de uma boa escola vão ter uma nota superior. Se um aluno que vem de um Pueri Domus, Liceu Pasteur, tira nota 8, esse que vem da periferia e tirou nota 5 teve uma caminhada muito longa. Essa nota 5 pode ser mais significativa do que a nota 7 ou 8. Dando oportunidade ao aluno, ele não vai decepcionar.
Foi isso que aconteceu, deram oportunidade. As cotas são aplicadas desde 2003. Nestes sete anos, quantos jovens beneficiados pelas cotas terminaram o curso universitário e quantos anos o Brasil levaria para formar o tanto de negros sem cotas? Talvez 20 ou mais. Isso são coisas concretas para as quais as pessoas fecham os olhos. No artigo do professor Demétrio Magnoli, ele me critica, mas não leu nada. Nem uma linha de meus livros. Simplesmente pegou o livro da Eneida de Almeida dos Santos, Mulato, negro não-negro e branco não-branco que pediu para eu fazer uma introdução, e desta introdução de três páginas ele tirou algumas frases e, a partir dessas frases, me acusa de ser um charlatão acadêmico, de professar o racismo científico abandonado há mais de um século e fazer parte de um projeto de racialização oficial do Brasil. Nunca leu nada do que eu escrevi.
A autora do livro é mestiça, psiquiatra e estuda a dificuldade que os mestiços entre branco e negro têm pra construir a sua identidade. Fiz a introdução mostrando que eles têm essa dificuldade justamente por causa de serem negros não-negros e brancos não-brancos. Isso prejudica o processo, mas no plano político, jurídico, eles não podem ficar ambivalentes. Eles têm que optar por uma identidade, têm que aceitar sua negritude, e não rejeitá-la. Com isso ele acha que eu estou professando a supressão dos mestiços no Brasil e que isso faz parte do projeto de racialização do brasileiro. Não tinha nada para me acusar, soube que estou defendendo as cotas, tirou três frases e fez a acusação dele no jornal.

Fórum - O senhor toca na questão do imaginário da democracia racial, mas as pessoas são formadas para aceitarem esse mito...
Kabengele - O racismo é uma ideologia. A ideologia só pode ser reproduzida se as próprias vítimas aceitam, a introjetam, naturalizam essa ideologia. Além das próprias vítimas, outros cidadãos também, que discriminam e acham que são superiores aos outros, que têm direito de ocupar os melhores lugares na sociedade. Se não reunir essas duas condições, o racismo não pode ser reproduzido como ideologia, mas toda educação que nós recebemos é para poder reproduzi-la.
Há negros que introduziram isso, que alienaram sua humanidade, que acham que são mesmo inferiores e o branco tem todo o direito de ocupar os postos de comando. Como também tem os brancos que introjetaram isso e acham mesmo que são superiores por natureza. Mas para você lutar contra essa ideia não bastam as leis, que são repressivas, só vão punir. Tem que educar também. A educação é um instrumento muito importante de mudança de mentalidade e o brasileiro foi educado para não assumir seus preconceitos. O Florestan Fernandes dizia que um dos problemas dos brasileiros é o “preconceito de ter preconceito de ter preconceito”. O brasileiro nunca vai aceitar que é preconceituoso. Foi educado para não aceitar isso. Como se diz, na casa de enforcado não se fala de corda.
Quando você está diante do negro, dizem que tem que dizer que é moreno, porque se disser que é negro, ele vai se sentir ofendido. O que não quer dizer que ele não deve ser chamado de negro. Ele tem nome, tem identidade, mas quando se fala dele, pode dizer que é negro, não precisa branqueá-lo, torná-lo moreno. O brasileiro foi educado para se comportar assim, para não falar de corda na casa de enforcado. Quando você pega um brasileiro em flagrante de prática racista, ele não aceita, porque não foi educado para isso. Se fosse um americano, ele vai dizer: "Não vou alugar minha casa para um negro". No Brasil, vai dizer: "Olha, amigo, você chegou tarde, acabei de alugar". Porque a educação que o americano recebeu é pra assumir suas práticas racistas, pra ser uma coisa explícita.
Quando a Folha de S. Paulo fez aquela pesquisa de opinião em 1995, perguntaram para muitos brasileiros se existe racismo no Brasil. Mais de 80% disseram que sim. Perguntaram para as mesmas pessoas: "você já discriminou alguém?". A maioria disse que não. Significa que há racismo, mas sem racistas. Ele está no ar... Como você vai combater isso? Muitas vezes o brasileiro chega a dizer ao negro que reage: "você que é complexado, o problema está na sua cabeça". Ele rejeita a culpa e coloca na própria vítima. Já ouviu falar de crime perfeito? Nosso racismo é um crime perfeito, porque a própria vítima é que é responsável pelo seu racismo, quem comentou não tem nenhum problema.

Revista Fórum
- O humorista Danilo Gentilli escreveu no Twitter uma piada a respeito do King Kong, comparando com um jogador de futebol que saía com loiras. Houve uma reação grande e a continuação dos argumentos dele para se justificar vai ao encontro disso que o senhor está falando. Ele dizia que racista era quem acusava ele, e citava a questão do orgulho negro como algo de quem é racista.
Kabengele - Faz parte desse imaginário. O que está por trás que está fazendo uma ilustração de King Kong, que ele compara a um jogador de futebol que vai casar com uma loira, é a ideia de alguém que ascende na vida e vai procurar sua loira. Mas qual é o problema desse jogador de futebol? São pessoas vítimas do racismo que acham que agora ascenderam na vida e, para mostrar isso, têm que ter uma loira que era proibida quando eram pobres? Pode até ser uma explicação. Mas essa loira não é uma pessoa humana que pode dizer não ou sim e foi obrigada a ir com o King Kong por causa de dinheiro? Pode ser, quantos casamentos não são por dinheiro na nossa sociedade? A velha burguesia só se casa dentro da velha burguesia. Mas sempre tem pessoas que desobedecem as normas da sociedade.
Essas jovens brancas, loiras, também pulam a cerca de suas identidades pra casar com um negro jogador. Por que a corda só arrebenta do lado do jogador de futebol? No fundo, essas pessoas não querem que os negros casem com suas filhas. É uma forma de racismo. Estão praticando um preconceito que não respeita a vontade dessas mulheres nem essas pessoas que ascenderam na vida, numa sociedade onde o amor é algo sem fronteiras, e não teria tantos mestiços nessa sociedade. Com tudo o que aconteceu no campo de futebol com aquele jogador da Argentina que chamou o Grafite de macaco, com tudo o que acontece na Europa, esse humorista faz uma ilustração disso, ou é uma provocação ou quer reafirmar os preconceitos na nossa sociedade.

Fórum
- É que no caso, o Danilo Gentili ainda justificou sua piada com um argumento muito simplório: "por que eu posso chamar um gordo de baleia e um negro de macaco", como se fosse a mesma coisa.
Kabengele - É interessante isso, porque tenho a impressão de que é um cara que não conhece a história e o orgulho negro tem uma história. São seres humanos que, pelo próprio processo de colonização, de escravidão, a essas pessoas foi negada sua humanidade. Para poder se recuperar, ele tem que assumir seu corpo como negro. Se olhar no espelho e se achar bonito ou se achar feio. É isso o orgulho negro. E faz parte do processo de se assumir como negro, assumir seu corpo que foi recusado. Se o humorista conhecesse isso, entenderia a história do orgulho negro. O branco não tem motivo para ter orgulho branco porque ele é vitorioso, está lá em cima. O outro que está lá em baixo que deve ter orgulho, que deve construir esse orgulho para poder se reerguer.

Fórum
- O senhor tocou no caso do Grafite com o Desábato, e recentemente tivemos, no jogo da Libertadores entre Cruzeiro e Grêmio, o caso de um jogador que teria sido chamado de macaco por outro atleta. Em geral, as pessoas – jornalistas que comentaram, a diretoria gremista – argumentavam que no campo de futebol você pode falar qualquer coisa, e que se as pessoas fossem se importar com isso, não teria como ter jogo de futebol. Como você vê esse tipo de situação?
Kabengele - Isso é uma prova daquilo que falei, os brasileiros são educados para não assumir seus hábitos, seu racismo. Em outros países, não teria essa conversa de que no campo de futebol vale. O pessoal pune mesmo. Mas aqui, quando se trata do negro... Já ouviu caso contrário, de negro que chama branco de macaco? Quando aquele delegado prendeu o jogador argentino no caso do Grafite, todo mundo caiu em cima. Os técnicos, jornalistas, esportistas, todo mundo dizendo que é assim no futebol. Então a gente não pode educar o jogador de futebol, tudo é permitido? Quando há violência física, eles são punidos, mas isso aqui é uma violência também, uma violência simbólica. Por que a violência simbólica é aceita a violência física é punida?

Fórum - Como o senhor vê hoje a aplicação da lei que determina a obrigatoriedade do ensino de cultura africana nas escolas? Os professores, de um modo geral, estão preparados para lidar com a questão racial?
Kabengele - Essa lei já foi objeto de crítica das pessoas que acham que isso também seria uma racialização do Brasil. Pessoas que acham que, sendo a população brasileira uma população mestiça, não é preciso ensinar a cultura do negro, ensinar a história do negro ou da África. Temos uma única história, uma única cultura, que é uma cultura mestiça. Tem pessoas que vão nessa direção, pensam que isso é uma racialização da educação no Brasil.
Mas essa questão do ensino da diversidade na escola não é propriedade do Brasil. Todos os países do mundo lidam com a questão da diversidade, do ensino da diversidade na escola, até os que não foram colonizadores, os nórdicos, com a vinda dos imigrantes, estão tratando da questão da diversidade na escola.
O Brasil deveria tratar dessa questão com mais força, porque é um país que nasceu do encontro das culturas, das civilizações. Os europeus chegaram, a população indígena – dona da terra – os africanos, depois a última onda imigratória é dos asiáticos. Então tudo isso faz parte das raízes formadoras do Brasil que devem fazer parte da formação do cidadão. Ora, se a gente olhar nosso sistema educativo, percebemos que a história do negro, da África, das populações indígenas não fazia parte da educação do brasileiro.
Nosso modelo de educação é eurocêntrico. Do ponto de vista da historiografia oficial, os portugueses chegaram na África, encontraram os africanos vendendo seus filhos, compraram e levaram para o Brasil. Não foi isso que aconteceu. A história da escravidão é uma história da violência. Quando se fala de contribuições, nunca se fala da África. Se se introduzir a história do outro de uma maneira positiva, isso ajuda.
É por isso que a educação, a introdução da história dele no Brasil, faz parte desse processo de construção do orgulho negro. Ele tem que saber que foi trazido e aqui contribuiu com o seu trabalho, trabalho escravizado, para construir as bases da economia colonial brasileira. Além do mais, houve a resistência, o negro não era um João-Bobo que simplesmente aceitou, senão a gente não teria rebeliões das senzalas, o Quilombo dos Palmares, que durou quase um século. São provas de resistência e de defesa da dignidade humana. São essas coisas que devem ser ensinadas. Isso faz parte do patrimônio histórico de todos os brasileiros. O branco e o negro têm que conhecer essa história porque é aí que vão poder respeitar os outros.
Voltando a sua pergunta, as dificuldades são de duas ordens. Em primeiro lugar, os educadores não têm formação para ensinar a diversidade. Estudaram em escolas de educação eurocêntrica, onde não se ensinava a história do negro, não estudaram história da África, como vão passar isso aos alunos? Além do mais, a África é um continente, com centenas de culturas e civilizações. São 54 países oficialmente. A primeira coisa é formar os educadores, orientar por onde começou a cultura negra no Brasil, por onde começa essa história. Depois dessa formação, com certo conteúdo, material didático de boa qualidade, que nada tem a ver com a historiografia oficial, o processo pode funcionar.

Fórum - Outra questão que se discute é sobre o negro nos espaços de poder. Não se veem negros como prefeitos, governadores. Como trabalhar contra isso?
Kabengele - O que é um país democrático? Um país democrático, no meu ponto de vista, é um país que reflete a sua diversidade na estrutura de poder. Nela, você vê mulheres ocupando cargos de responsabilidade, no Executivo, no Legislativo, no Judiciário, assim como no setor privado. E ainda os índios, que são os grandes discriminados pela sociedade. Isso seria um país democrático. O fato de você olhar a estrutura de poder e ver poucos negros ou quase não ver negros, não ver mulheres, não ver índios, isso significa que há alguma coisa que não foi feita nesse país. Como construção da democracia, a representatividade da diversidade não existe na estrutura de poder. Por quê?
Se você fizer um levantamento no campo jurídico, quantos desembargadores e juízes negros têm na sociedade brasileira? Se você for pras universidades públicas, quantos professores negros tem, começando por minha própria universidade? Esta universidade tem cerca de 5 mil professores. Quantos professores negros tem na USP? Nessa grande faculdade, que é a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), uma das maiores da USP junto com a Politécnica, tenho certeza de que na minha faculdade fui o primeiro negro a entrar como professor. Desde que entrei no Departamento de Antropologia, não entrou outro. Daqui três anos vou me aposentar. O professor Milton Santos, que era um grande professor, quase Nobel da Geografia, entrou no departamento, veio do exterior e eu já estava aqui. Em toda a USP, não sou capaz de passar de dez pessoas conhecidas. Pode ter mais, mas não chega a 50, exagerando. Se você for para as grandes universidades americanas, Harvard, Princeton, Standford, você vai encontrar mais negros professores do que no Brasil. Lá eles são mais racistas, ou eram mais racistas, mas como explicar tudo isso?
120 anos de abolição. Por que não houve uma certa mobilidade social para os negros chegarem lá? Há duas explicações: ou você diz que ele é geneticamente menos inteligente, o que seria uma explicação racista, ou encontra explicação na sociedade. Quer dizer que se bloqueou a sua mobilidade. E isso passa por questão de preconceito, de discriminação racial. Não há como explicar isso. Se você entender que os imigrantes japoneses chegaram, nós comemoramos 100 anos recentemente da sua vinda, eles tiveram uma certa mobilidade. Os coreanos também ocupam um lugar na sociedade. Mas os negros já estão a 120 anos da abolição. Então tem uma explicação. Daí a necessidade de se mudar o quadro. Ou nós mantemos o quadro, porque se não mudamos estamos racializando o Brasil, ou a gente mantém a situação para mostrar que não somos racistas. Porque a explicação é essa, se mexer, somos racistas e estamos racializando. Então vamos deixar as coisas do jeito que estão. Esse é o dilema da sociedade.

Revista Fórum
– como o senhor vê o tratamento dado pela mídia à questão racial?
Kabengele - A imprensa faz parte da sociedade. Acho que esse discurso do mito da democracia racial é um discurso também que é absorvido por alguns membros da imprensa. Acho que há uma certa tendência na imprensa pelo fato de ser contra as políticas de ação afirmativa, sendo que também não são muito favoráveis a essa questão da obrigatoriedade do ensino da história do negro na escola.
Houve, no mês passado, a II Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial. Silêncio completo da imprensa brasileira. Não houve matérias sobre isso. Os grandes jornais da imprensa escrita não pautaram isso. O silêncio faz parte do dispositivo do racismo brasileiro. Como disse Elie Wiesel, o carrasco mata sempre duas vezes. A segunda mata pelo silêncio. O silêncio é uma maneira de você matar a consciência de um povo. Porque se falar sobre isso abertamente, as pessoas vão buscar saber, se conscientizar, mas se ficar no silêncio a coisa morre por aí. Então acho que o silêncio da imprensa, no meu ponto de vista, passa por essa estratégia, é o não-dito.
Acabei de passar por uma experiência interessante. Saí da Conferência Nacional e fui para Barcelona, convidado por um grupo de brasileiros que pratica capoeira. Claro, receberam recursos do Ministério das Relações Exteriores, que pagou minha passagem e a estadia. Era uma reunião pequena de capoeiristas e fiz uma conferência sobre a cultura negra no Brasil. Saiu no El Pais, que é o jornal mais importante da Espanha, noticiou isso, uma coisa pequena. Uma conferência nacional deste tamanho aqui não se fala. É um contrassenso. O silêncio da imprensa não é um silêncio neutro, é um silêncio que indica uma certa orientação da questão racial. Tem que não dizer muita coisa e ficar calado. Amanhã não se fala mais, acabou.